O premiê chinês Li Qiang prometeu ampliar a abertura econômica do país e criticou o unilateralismo sem pronunciar o nome de Donald Trump. O discurso foi feito neste domingo (22) em Pequim, na abertura do Fórum de Desenvolvimento da China.
A plateia era cuidadosamente escolhida: Tim Cook, CEO da Apple, e executivos do HSBC, UBS e Standard Chartered — exatamente os parceiros que Pequim quer manter ao seu lado diante da guerra comercial com Washington.
Diante dos líderes empresariais, Li Qiang afirmou que a China “promoverá de forma decidida uma abertura de alto nível, importará mais bens estrangeiros de alta qualidade e trabalhará com todas as partes para promover um desenvolvimento otimizado e equilibrado do comércio”, segundo a agência estatal Xinhua.
A promessa de abertura chega em um momento em que as exportações chinesas acumulam alta de 21,8% nos dois primeiros meses de 2026, de acordo com dados oficiais divulgados neste mês — um desempenho que, paradoxalmente, alimenta as críticas dos próprios parceiros que Pequim quer seduzir.
Vários países têm cobrado que a China reduza seu elevado superávit comercial, alegando impacto direto sobre a concorrência local. Li não abordou o ponto de forma direta, mas defendeu que o protecionismo e o unilateralismo “não são solução para os problemas”.
Na abertura da Assembleia Popular Nacional, no início do mês, Li Qiang já havia reconhecido o cenário adverso ao anunciar a menor meta de crescimento chinesa em mais de três décadas — entre 4,5% e 5% para 2026 —, reflexo direto das pressões comerciais com Washington.
O tom calculado do discurso revela a estratégia diplomática de Pequim: posicionar a China como defensora do multilateralismo e do livre comércio enquanto os Estados Unidos avançam com tarifas unilaterais impostas por Trump a parceiros ao redor do mundo.
A escolha do Fórum de Desenvolvimento da China como palco não é acidental. O evento reúne anualmente executivos globais e funciona como vitrine de relacionamento entre o governo chinês e o empresariado ocidental — uma arena em que Pequim projeta estabilidade e previsibilidade, atributos escassos no clima atual.
A presença de Tim Cook é emblemática: a Apple depende profundamente da cadeia produtiva chinesa, e qualquer escalada no conflito tarifário entre Washington e Pequim afeta diretamente suas operações. Para a China, manter esse tipo de interlocutor próximo é tanto econômico quanto simbólico.
O conflito comercial sino-americano, reacendido pelas tarifas do governo Trump, não dá sinais de resolução próxima. Pequim aposta na narrativa da abertura para isolar Washington no cenário global — e o Fórum deste domingo foi mais um capítulo dessa disputa de narrativas.
