O percentual de brasileiros que já experimentaram alguma droga ilícita ao menos uma vez na vida quase dobrou em 11 anos: saltou de 10,3% para 18,8%, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido por pesquisadores da Unifesp e divulgado neste sábado (22).
O crescimento foi puxado sobretudo pela maconha, em tendência já observada em outros países ocidentais. Cocaína e crack tiveram comportamento estável no período.
O Lenad III é a principal referência epidemiológica brasileira sobre uso de substâncias psicoativas. A edição anterior, com mesma metodologia, é de 2012. Para a psicóloga Clarice Madruga, coordenadora da pesquisa, o salto era esperado diante do longo intervalo entre as edições e da mudança na percepção social sobre os riscos da cannabis.
“Em alguns países, esse aumento ocorreu antes. No Brasil, aconteceu nos últimos dez anos. Em 2012, tínhamos um consumo de maconha baixo e agora ele está dentro de uma média”, afirmou a pesquisadora.
Mulheres consomem mais
Um dos dados mais expressivos é a mudança no perfil do consumidor. Entre mulheres adultas, o uso de qualquer droga ilícita ao longo da vida quase dobrou — de 7% para 13,9%. Clarice Madruga aponta como hipótese a crença equivocada de que a cannabis ajudaria a “acalmar” ou controlar o estresse.
O avanço entre as mulheres segue uma tendência mais ampla de aumento do uso de substâncias pelo público feminino: o álcool também mata 20% mais mulheres brasileiras do que há dez anos e as internações subiram 41%, revelando um padrão preocupante que vai além das drogas ilícitas.
Como o estudo foi feito
A amostra reuniu 16.608 pessoas em todo o território nacional, incluindo zonas urbanas e rurais, com 900 setores censitários sorteados em municípios selecionados proporcionalmente pela renda média dos domicílios.
Um diferencial do Lenad III é a metodologia de autopreenchimento sigiloso: o participante responde em um tablet sem intermediação do entrevistador, reduzindo subnotificação por medo ou vergonha. Participantes que não sabiam ler ou escrever registravam as respostas em áudio anônimo.
Jovens no centro da preocupação
O levantamento aponta alta proporção de jovens entre os consumidores. Acesso facilitado e a crença de que a maconha não causa danos são apontados como fatores críticos — especialmente porque qualquer substância psicotrópica, incluindo álcool, tabaco e vape, pode causar danos significativos a um cérebro ainda em desenvolvimento.
Entre os prejuízos destacados estão problemas de memória e aprendizado, além de alterações no controle de impulsos, já que a substância afeta áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisões.
Os riscos vão além do vício: uma meta-análise de Cambridge com mais de 100 milhões de pessoas mostrou que a cannabis eleva em 33% a probabilidade de AVC — dado que ganha peso diante do crescimento expressivo do consumo da droga no país.
Para Clarice Madruga, estratégias baseadas em amedrontar os jovens com informações exageradas não funcionam. A pesquisadora defende políticas públicas integradas: investimento em educação com valorização de professores, maior suporte às escolas e ampliação de opções de lazer e atividades culturais e esportivas, sobretudo para populações mais vulneráveis.
