O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou na noite desta sexta-feira (20) para Bogotá, onde participa neste sábado da cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) — reunião que ganhou peso político incomum diante das pressões do governo Trump sobre a região.
O encontro reúne chefes de Estado, chanceleres e empresários. Entre os confirmados estão o uruguaio Luis Lacalle Pou e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, além de cerca de 20 chanceleres. O anfitrião é o presidente colombiano Gustavo Petro.
Para o Palácio do Planalto, a cúpula não é apenas um fórum diplomático de rotina. Interlocutores do governo descrevem a Celac como um instrumento de proteção coletiva diante da pressão americana — e Lula pretende levar essa leitura a outros líderes para fortalecer a articulação regional.
O pano de fundo é concreto: em março, Donald Trump associou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) a grupos terroristas, sinalizando que o governo americano estuda enquadrar as facções brasileiras nessa categoria. A declaração final da cúpula deve, justamente, evitar essa equiparação automática entre crime organizado e terrorismo.
A proposta em negociação prioriza cooperação policial regional e rastreamento de fluxos financeiros ilícitos como estratégia preferencial — sem o rótulo terrorista que Washington tem utilizado para ampliar sua influência sobre as políticas de segurança dos países vizinhos.
A cúpula chega num momento de tensão direta: semanas antes, Lula havia telefonado para o próprio Petro e para a presidente mexicana Claudia Sheinbaum para articular resistência à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Leia mais sobre as ligações de Lula para barrar a designação terrorista.
O encontro em Bogotá ocorre duas semanas depois de Trump reunir aliados de direita no chamado “Escudo das Américas” — iniciativa que excluiu deliberadamente Lula, Petro e outros líderes progressistas, e que acelera a busca brasileira por uma alternativa regional. Veja como Trump montou sua aliança paralela nas Américas.
Celac como contrapeso geopolítico
A estratégia do governo Lula é clara: reforçar o papel da Celac para que a América Latina atue de forma mais integrada e deixe de ser tratada como área de influência exclusiva dos Estados Unidos. O bloco reúne 33 países e cerca de 650 milhões de habitantes — uma região que produz alimentos para três vezes sua população e responde por cerca de um quarto das exportações globais.
O Brasil tem interesse econômico direto nessa articulação. O fluxo comercial com países latino-americanos e caribenhos gira em torno de US$ 100 bilhões, e a região absorve 40% das exportações brasileiras de manufaturados.
A viagem à Colômbia veio na sequência direta da visita do presidente boliviano Rodrigo Paz ao Planalto, quando os dois líderes assinaram um acordo de cooperação contra o crime organizado na fronteira — pauta que agora sobe para o nível multilateral na Celac. Saiba mais sobre o acordo Brasil-Bolívia contra o crime organizado.
Diálogo com a África na pauta
A programação inclui ainda um Fórum de Alto Nível entre a Celac e o continente africano, uma das prioridades da presidência colombiana do bloco. O objetivo é ampliar mecanismos de cooperação Sul-Sul — modelo de parceria entre países em desenvolvimento da América Latina, África e Ásia sem mediação de países ricos.
O comércio entre Brasil e países africanos gira em torno de US$ 24 bilhões. Nos últimos anos, iniciativas como a Conferência da Diáspora Africana, em Salvador, e a participação de Lula na União Africana, em 2024, já sinalizavam essa aproximação. O fórum discutirá reparação histórica, ampliação do comércio e fortalecimento de consensos diplomáticos entre as duas regiões.
