A Kalshi, empresa de mercados de previsão cofundada pela mineira Luana Lopes Lara — apontada pela Forbes como a bilionária mais jovem do mundo que construiu sua própria fortuna —, está no centro de uma série de polêmicas nos Estados Unidos em 2026.
A plataforma foi processada em ação coletiva por US$ 54 milhões após cancelar apostas sobre o líder supremo do Irã, e é alvo de acusações formais no Arizona por aceitar bets consideradas ilegais sobre eleições e esportes.
Apostas em guerra e o processo de US$ 54 milhões
A Kalshi lidera os chamados prediction markets — mercados de previsão —, setor que movimentou mais de US$ 44 bilhões em transações nos EUA no último ano. A empresa opera como uma bolsa de “contratos de eventos”: usuários apostam uns contra os outros no resultado de perguntas de sim ou não sobre o futuro, do comportamento do banco central americano ao retorno de Jesus Cristo.
A polêmica mais recente envolve apostas sobre ações militares no Irã. No mês passado, um homem do Montana apostou US$ 10 na probabilidade de o aiatolá Ali Khamenei ser deposto até 1º de março — após notar o aumento de entregas de pizza perto do Pentágono, interpretado como sinal de operação militar iminente. A Kalshi cancelou as apostas ligadas ao aiatolá, mas acabou processada em ação coletiva na Califórnia por não pagar US$ 54 milhões a quem havia apostado.
A empresa tem regras contra apostas envolvendo mortes de pessoas, mas os processantes alegam que a plataforma continuou aceitando contratos mesmo após notícias sobre a morte de Khamenei começarem a circular. A Kalshi afirmou que suas regras eram claras e incluíam “todas as precauções para garantir que as pessoas não pudessem negociar com base no resultado da morte”.
A rival Polymarket também foi envolvida em suspeitas: em janeiro, as apostas de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixaria o poder cresceram nas horas que antecederam sua prisão pelo governo americano. Um apostador lucrou quase meio milhão de dólares com a captura — levantando questionamentos sobre o uso de informação privilegiada.
Nesta semana, a procuradora-geral do Arizona acusou formalmente a Kalshi de aceitar apostas ilegais no Estado, incluindo bets na eleição presidencial de 2028, na disputa para governador do Arizona em 2026 e em jogos da NFL, NBA e Super Bowl. A empresa se defende alegando que atua como bolsa regulada pelo governo federal, fora da alçada dos reguladores estaduais. “Essas acusações são infundadas e estamos ansiosos para combatê-las no tribunal”, declarou.
Conexões políticas e a disputa pelo mercado brasileiro
O setor de prediction markets enfrentou maior escrutínio durante o governo Biden, mas ganhou terreno com Donald Trump na presidência. Donald Trump Jr., filho do presidente, atua como consultor da Kalshi e tem investimentos na Polymarket — conexão que amplifica o debate sobre conflitos de interesse no segmento.
O padrão de apostas milionárias registradas horas antes do ataque que matou Khamenei já havia levantado suspeitas de uso de informação privilegiada, episódio que acelerou as cobranças de parlamentares americanos por regulamentação mais rigorosa. O congressista Ritchie Torres propôs legislação para proibir funcionários do governo de negociar em mercados de previsão quando tiverem informações relevantes não públicas sobre uma aposta.
No Brasil, as bets tradicionais — que pagaram R$ 30 milhões em outorgas para operar no país — pressionam a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda para bloquear a Kalshi e similares, alegando que essas plataformas operam sem sede local e sem licença. Em entrevista ao Valor Econômico, Luana Lopes Lara disse que a empresa estuda abrir um escritório no Brasil. Há relatos de que brasileiros já acessam as plataformas via remessas internacionais com criptomoedas ou cartões internacionais.
A trajetória de Lara — ex-bailarina do Bolshoi, medalhista em olimpíadas brasileiras de astronomia e matemática e formada no MIT — chamou atenção da Forbes no fim de 2025, quando sua fortuna pessoal foi estimada em US$ 1,3 bilhão. Ela detém 12% da Kalshi e ocupa o cargo de diretora de operações. Agora, a empresa que ajudou a construir enfrenta sua maior turbulência regulatória desde a fundação.
