Um projeto que reúne universidades, profissionais e institutos de pesquisa acompanhou mais de 200 fazendas leiteiras desde 2017 e prova: reduzir a mortalidade de bezerras de 10% para menos de 3% é viável. Em Minas Gerais, casos concretos mostram que o investimento em estrutura e manejo adequado — incluindo colostro nas primeiras duas horas de vida e casinhas individuais — fez a diferença.
Há três anos, a realidade na fazenda dos irmãos Fernando e Henrique Silva, em Coromandel (MG), era devastadora. “Morria quase tudo”, relatam. A propriedade tinha tradição na atividade leiteira, mas a alta mortalidade de bezerras ameaçava a sustentabilidade do negócio.
Investimento transformou resultados
Os produtores investiram R$ 550 mil em um novo sistema de criação. O modelo antigo, com sombreamento a campo, deu lugar a 96 casinhas individuais que protegem os animais do clima e da umidade. O protocolo passou a incluir cura do umbigo com iodo, pesagem e, principalmente, fornecimento de colostro em até duas horas após o nascimento.
“O ideal é não passar de 3% de mortalidade. Já temos produtores que saíram da média de 10% e hoje trabalham com 2% ou até 1%”, afirma o zootecnista Rafael Azevedo, coordenador do programa Alta Cria, que acompanha propriedades em 10 estados.
Cuidado começa na gestação
A cerca de 200 km dali, em Carmo do Paranaíba (MG), o produtor Eldes Braga foi ainda mais longe. Em um rebanho com cerca de 350 nascimentos por ano, apenas seis bezerras morrem — o equivalente a 1,7%. “De três que nascia, duas morria”, lembra.
A mudança veio quando ele passou a priorizar o cuidado com as vacas durante a gestação. O produtor investiu em um galpão exclusivo para animais prenhes, com sistema de resfriamento por água e ventilação para reduzir o estresse térmico. “A vida desse animal depende dos cuidados que a gente dá para a mãe”, afirma.
As principais causas de mortalidade identificadas pelos especialistas são: doenças no umbigo e diarreia nos primeiros dias de vida; problemas respiratórios até os 90 dias; e a tristeza parasitária, transmitida pelo carrapato, a partir dos três meses.
Para os pesquisadores, a lição principal é que a atividade leiteira exige cada vez mais profissionalização. “Valeu muito a pena. Estamos aqui hoje porque fizemos o dever de casa”, resume Henrique Silva.
O bom manejo das bezerras garante a reposição do rebanho e a substituição de animais menos produtivos, sustentando a rentabilidade no longo prazo. Desde 2024, o programa também iniciou um levantamento semelhante para fazendas de gado de corte.
