A economia argentina cresceu 4,4% em 2025, primeira alta do PIB desde 2022 e o melhor resultado sob o governo Javier Milei, segundo dados do Indec divulgados nesta sexta-feira (20).
O número confirma a recuperação após a retração de 1,3% em 2024, mas especialistas alertam: o crescimento chegou concentrado em setores específicos e ainda não se traduziu em melhora concreta no dia a dia dos argentinos.
O crescimento foi impulsionado principalmente pela formação bruta de capital fixo, que avançou 16,4% — o maior componente de expansão do PIB —, acompanhado pelas exportações (7,6%) e pelo consumo privado (7,9%). No campo setorial, a intermediação financeira liderou com alta de 24,7%, seguida por mineração e pedreiras (8%) e hotelaria e restaurantes (7,4%).
Do lado negativo, o setor de pesca recuou 15,2% e o desemprego subiu 1,1 ponto percentual ao longo de 2025, chegando a 7,5% — o maior nível desde a pandemia de Covid-19. O consumo interno, embora positivo no acumulado anual, segue em desaceleração trimestral e ainda não recuperou as perdas de 2024.
O preço do ajuste fiscal
O consumo fraco tem raiz direta nas medidas do Plano Motosserra: Milei paralisou obras federais, interrompeu repasses aos estados e retirou subsídios de tarifas de água, gás, luz e transporte público após assumir, em dezembro de 2023. O choque inflacionário resultante — 211,4% em 2023 e 117,8% em 2024 — comprimiu o poder de compra dos argentinos por dois anos seguidos.
Em 2025, a inflação recuou para 31,5%, a principal conquista macroeconômica do governo. Milei também encerrou dois anos consecutivos de superávit fiscal — feito que a Argentina não alcançava desde 2008. Para Federico Servideo, da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, o crescimento do PIB sinaliza que o programa econômico pode ter interrompido, em certa medida, a crise argentina — conferindo ao governo “um ganho de credibilidade no curto prazo, especialmente junto a mercados e setores mais favoráveis às reformas”.
O consumo reprimido dos argentinos já projeta efeitos além-fronteira. As exportações brasileiras de veículos ao país caíram 28% no primeiro bimestre de 2026, com os emplacamentos argentinos recuando 37% em fevereiro — reflexo direto das incertezas geradas pelas reformas de Milei. Veja o impacto nas exportações brasileiras de veículos para a Argentina.
O contraste regional também é revelador: enquanto a Argentina avançou 4,4%, o Brasil cresceu apenas 2,3% em 2025, freado pela Selic a 15% — o pior resultado do país desde a pandemia.
Eleições 2026 no horizonte
Tito Nolazco, da Prospectiva Public Affairs Latam, avalia que o principal desafio de Milei em 2026 será converter ganhos macroeconômicos em benefícios concretos para os cidadãos, construindo uma base sólida de apoio antes do próximo pleito. O especialista projeta que o governo continuará com sua agenda de reformas no Congresso, mas ressalta o intervalo significativo entre a aprovação das medidas e seus efeitos reais na economia.
Em fevereiro, o Congresso argentino aprovou uma ampla reforma trabalhista que flexibiliza o mercado de trabalho — celebrada pelo setor privado e contestada por sindicatos que prometem disputa jurídica. Segundo Jimena Zuniga, da Bloomberg Economics, o crescimento manteve-se forte em energia e mineração, mas segue fraco em setores mais abrangentes — tornando a recuperação, nas palavras de Servideo, ainda “concentrada e pouco inclusiva”.
