Uma meta-análise da Universidade de Cambridge reuniu dados de mais de 100 milhões de pessoas para medir o impacto do uso recreativo de drogas ilícitas sobre o risco de AVC — e os resultados são um alerta para a saúde pública.
O estudo consolidou 32 pesquisas e foi publicado no International Journal of Stroke, principal periódico da World Stroke Organization. Anfetamina, cocaína e cannabis aumentam de forma expressiva a probabilidade de acidente vascular cerebral — no caso da anfetamina, o risco mais que dobra.
O quanto cada droga eleva o risco
Entre as substâncias analisadas, a anfetamina apresentou a associação mais grave: usuários têm 122% mais chance de sofrer um AVC em comparação a quem não usa a droga. A cocaína aparece logo atrás, com aumento de 96% no risco, e a cannabis eleva em 33% a probabilidade do problema vascular.
Para os opioides, a relação não ficou evidente nos dados.
Os pesquisadores aplicaram a randomização mendeliana — técnica que usa variações genéticas naturais para verificar se há relação causal, e não apenas correlacional, entre o fator de risco e o desfecho observado.
Cada droga, um tipo diferente de AVC
O estudo identificou que as substâncias estão associadas a tipos específicos de acidente vascular cerebral. A cannabis foi ligada principalmente a AVCs por doenças de grandes artérias. A cocaína mostrou relação com AVCs cardioembólicos — quando um coágulo formado no coração migra para o cérebro.
A anfetamina apresentou associação mais forte com AVCs hemorrágicos, causados pelo rompimento de um vaso sanguíneo, embora também eleve o risco para todos os demais tipos.
Não são apenas drogas que elevam esse risco: um estudo publicado dias antes mostrou que cárie e gengivite combinadas aumentam em 36% a chance de AVC — reforçando que múltiplos fatores preveníveis contribuem para a doença.
Alerta para políticas públicas de prevenção
Os pesquisadores de Cambridge concluem que os resultados reforçam a necessidade de medidas de saúde pública voltadas à redução do abuso de drogas como estratégia de prevenção ao AVC.
A urgência é justificada pelos dados: o AVC é a terceira principal causa de morte no mundo. No Brasil, em 2025, a condição tirou a vida de um brasileiro a cada seis minutos — mais de 64 mil mortes apenas entre janeiro e outubro.
Para as mesmas substâncias estudadas, uma pesquisa com 600 mil veteranos americanos mostrou que o Ozempic reduziu em 50% as mortes por dependência de cocaína e cannabis, abrindo uma frente terapêutica relevante para a prevenção do AVC ligada ao controle do vício.
O AVC ocorre quando há obstrução total ou parcial dos vasos sanguíneos no cérebro. Entre as principais sequelas estão paralisia, dificuldades de fala e comprometimento cognitivo — impactos que ampliam a dimensão do problema para os sistemas de saúde ao redor do mundo.
