A física Márcia Cristina Bernardes Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lançou um alerta sobre o que chama de movimento global para desacreditar universidades públicas e comunitárias.
Em entrevista à GloboNews nesta terça-feira (17), ela associou os ataques a um lobby das empresas de tecnologia, que buscam substituir o ambiente universitário por cursos próprios de baixa qualidade.
Reconhecida pela Forbes como uma das mulheres que transformam a ciência, Barbosa defende que as universidades precisam urgentemente se aproximar da população — ou vão morrer.
Universidades como executoras de políticas públicas
A reitora da UFRGS sustenta que a população desconhece um papel central das universidades brasileiras: a implementação de políticas públicas em larga escala.
“O governo não tem condições de fazer formação em larga escala”, afirmou Barbosa, citando como exemplo o Projeto Mais Saúde com Agente. O programa, desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde, oferta formação a distância para Agentes Comunitários de Saúde e já capacitou mais de 400 mil profissionais.
Para a reitora, esse modelo evidencia que, sem as universidades públicas, serviços essenciais simplesmente deixam de existir — e é exatamente isso que torna os ataques às instituições tão perigosos.
O lobby das big techs e as universidades fast food
Barbosa identifica nas grandes empresas de tecnologia o principal motor dos ataques. Segundo ela, há um movimento para criar “um grande conglomerado de universidades” que ela chama de fast food: ensino de baixa qualidade, formatado para atender demandas imediatas de mercado.
“Quem pensa fora da caixa é a universidade”, rebate a reitora, criticando a crença de que cursos ofertados por gigantes da tecnologia substituiriam o ambiente de pesquisa universitário.
Para Barbosa, essa visão é equivocada: o diferencial das universidades está na diversidade de perspectivas que o ambiente acadêmico proporciona — algo que plataformas corporativas não conseguem replicar.
Diversidade, cotas e a batalha pela sobrevivência institucional
A reitora citou a pesquisa Diversity Matters, da McKinsey, para reforçar o argumento econômico da diversidade. “Empresas que têm mais diversidade, melhor equilíbrio entre homens e mulheres, melhor equilíbrio racial, ganham mais dinheiro”, afirmou.
Para Barbosa, as cotas foram decisivas para abrir espaço nas universidades — mas a inclusão não se encerra na entrada. É preciso garantir que diferentes visões contribuam efetivamente para as decisões acadêmicas e políticas.
“Se tiver 20 pessoas na sala, todas que estudaram no mesmo colégio, na mesma visão de mundo, todas vão vir com a mesma solução”, exemplificou. A diversidade, para ela, é o que impulsiona inovação e disrupção real.
Diante do movimento de desacreditação, a reitora defende uma estratégia clara: ampliar presença em ruas, eventos e redes sociais, mesmo que isso cause desconforto no meio acadêmico. “Vamos morrer se a gente não fizer isso”, alertou.