Três anos no Ministério da Fazenda, um balanço contraditório: Fernando Haddad entregou PIB acima do previsto em todos os anos e desemprego no menor nível da história — mas não evitou que a dívida pública subisse 7 pontos percentuais em relação ao PIB.
O déficit de 2023 chegou a R$ 249 bilhões. Um ano depois, recuou mais de 80%, para R$ 47,6 bilhões. Mesmo assim, revisões de metas e gastos fora do teto mantiveram o mercado desconfiante do ministro até o final do ciclo.
Para o Tesouro Nacional, a dívida bruta deve alcançar 83,6% do PIB em 2026 — patamar que economistas classificam como incompatível com uma trajetória sustentável das contas públicas.
O fiscal que não fechou
A aprovação do arcabouço fiscal em 2023 foi o primeiro gesto concreto de Haddad para sinalizar compromisso com as contas públicas. O instrumento substituiu o teto de gastos e deveria dar previsibilidade ao orçamento. Na prática, as metas foram revisadas ao longo do caminho.
Em abril de 2024, o governo propôs reduzir as metas de superávit primário na Lei de Diretrizes Orçamentárias, adiando para 2026 o resultado positivo que era esperado para 2025. O movimento abriu espaço para novos gastos e deteriorou a percepção do mercado financeiro sobre a trajetória fiscal.
Em novembro de 2024, Haddad tentou recuperar credibilidade com um pacote de cortes de R$ 70 bilhões em dois anos. O anúncio dividiu o noticiário no mesmo dia com a proposta de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil — promessa de campanha de Lula lida pelo mercado como mais um gasto não previsto.
Para ampliar a arrecadação, o ministério elevou o IOF e criou a “taxa das blusinhas”, cobrando 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. “Não chegamos a uma situação fiscal desastrosa, mas o déficit primário ainda não é compatível com uma trajetória sustentável da dívida”, resume Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.
A reforma tributária como legado
O ponto alto do mandato, segundo especialistas, foi a aprovação da reforma tributária em dezembro de 2023 — a primeira grande reestruturação do sistema fiscal em três décadas. A mudança criou um imposto sobre valor agregado (IVA), estabeleceu cesta básica nacional isenta de tributos e instituiu o Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”.
“Essa é uma reforma extremamente difícil e que, no início, poucos acreditavam que sairia do papel. Deve gerar efeitos positivos ao longo do tempo e conta a favor de Haddad”, afirma Alessandra Ribeiro, da Tendências. O economista Nelson Marconi, da FGV, lembra que uma reforma sobre a tributação da renda — com revisão de desonerações — ainda precisa ser realizada.
Crescimento, emprego e o peso dos juros
Mesmo sem controlar os gastos como o mercado esperava, Haddad entregou crescimento consistente. O PIB avançou acima das projeções em todos os anos do mandato. Em 2025, a expansão foi de 2,3% — o quinto ano seguido de crescimento, mas com desaceleração influenciada pela Selic a 15% ao ano, vigente desde junho de 2025. O investimento recuou 3,5% só no último trimestre do ano, com os juros elevados apontados pelo IBGE como o principal freio da atividade econômica.
No mercado de trabalho, o resultado foi histórico: a taxa média de desemprego caiu para 5,6% em 2025 — o menor nível da série iniciada em 2012. O rendimento médio real das pessoas ocupadas chegou a R$ 3.560, alta de 5,7% em relação a 2024.
O paradoxo é que o emprego em alta não blindou as famílias do endividamento. Cerca de 19 milhões de brasileiros encerraram 2025 presos no cartão de crédito, mesmo com o desemprego no nível mais baixo da história — reflexo direto dos juros elevados que pressionam o consumo há mais de um ano.
A inflação ficou dentro do intervalo de tolerância da meta de 3% em dois dos três anos do mandato. Economistas atribuem esse resultado, em boa medida, ao rigor do Banco Central em manter a política monetária restritiva mesmo sob pressão do governo federal para reduzir os juros.