O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu nesta segunda-feira (16) o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, no Planalto. A reunião bilateral resultou na assinatura de acordos que incluem medidas conjuntas contra o crime organizado na região de fronteira.
Em discurso após o encontro, Lula defendeu que a integração regional é uma “necessidade histórica” — e que nenhum país da América do Sul prosperará de forma isolada.
Gás boliviano e investimentos em energia
Na pauta energética, Lula reafirmou o peso estratégico da Bolívia para o abastecimento brasileiro. O país andino é o principal fornecedor de gás natural para o Brasil, e os dois presidentes discutiram a possibilidade de ampliar investimentos no setor e aumentar o volume exportado para o mercado brasileiro.
O presidente brasileiro classificou a Bolívia como “fonte segura” de combustível, especialmente diante das incertezas globais sobre o fornecimento de energia.
Acordos e agenda comum na fronteira
Entre os documentos assinados, destaca-se o acordo voltado ao combate ao crime organizado. A iniciativa prevê maior coordenação binacional para prevenir e punir o tráfico de drogas e de pessoas, contrabando, roubo de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais — sem abrir mão de facilitar a mobilidade das pessoas nas regiões de fronteira.
Os dois líderes trataram ainda da responsabilidade compartilhada pela Amazônia. Lula defendeu que Brasil e Bolívia são “guardiãs” da floresta e que a proteção da biodiversidade e dos povos amazônicos exige ação conjunta.
Lula citou também a importância da incorporação da Bolívia ao Mercosul — bloco do qual o país faz parte formalmente desde julho de 2024. A visita havia sido combinada em janeiro, à margem do Fórum Econômico Internacional das Américas no Panamá — o que explica tanto a agenda bilateral quanto o posicionamento de Lula em relação aos novos governos de direita na região.
Paz, a direita boliviana e o tabuleiro regional
Rodrigo Paz, de 58 anos, é membro do Partido Democrata Cristão e foi eleito presidente da Bolívia no fim de 2025. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, nasceu no exílio durante a ditadura militar e foi educado nos Estados Unidos. Apesar de discordar ideologicamente do governo Lula, declarou em campanha que o Brasil é o principal parceiro estratégico da Bolívia.
Na semana passada, Paz esteve na posse do presidente chileno José Antônio Kast — cerimônia que Lula evitou. O chanceler Mauro Vieira representou o Brasil e levou uma carta convidando Kast a visitar o país. Na ocasião, Paz afirmou querer ser ponte do Brasil ao oceano Pacífico, reforçando sua aposta na integração regional independentemente das divergências ideológicas.
A aproximação com Paz ocorre em pano de fundo tenso: semanas antes, Trump reuniu líderes latino-americanos no “Escudo das Américas” — cúpula da qual Lula foi deliberadamente excluído, e da qual Paz participou. O cenário geopolítico reforça o interesse do Planalto em estreitar laços com vizinhos, mesmo aqueles de orientação contrária.
