O governo Trump autorizou a venda de 100 milhões de barris de petróleo russo retidos no mar, em uma licença temporária que provocou reação imediata de Kyiv e Bruxelas.
A medida foi formalizada pelo Departamento do Tesouro na quinta-feira (12) e permite a comercialização do petróleo até 11 de abril. O objetivo declarado é aliviar os preços após a guerra no Irã levar o barril do Brent a ultrapassar US$ 100.
Zelensky, em Paris para encontro com Macron, disse que a decisão não contribui para a paz na Ucrânia. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi mais duro: afirmou que os aliados europeus não foram consultados.
Por que os EUA quebraram as próprias sanções
A pressão que forçou a decisão americana teve início com a guerra no Irã: o conflito suspendeu parte significativa do fornecimento global e fez o Brent saltar para o nível mais alto em quase quatro anos, acima de US$ 100 o barril.
O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo mundial, ficou sob ameaça de bloqueio iraniano. Isso paralisou embarques e deixou carregamentos russos à deriva no mar — fenômeno conhecido no setor como “armazenamento flutuante”.
Antes mesmo do anúncio oficial, o governo Trump já sinalizava que estudava exatamente essa medida para conter a escalada dos preços — a discussão interna havia vazado para a imprensa horas antes de a licença ser formalizada pelo Tesouro.
A licença tem prazo definido: vale até 11 de abril e abrange apenas cargas embarcadas antes de 12 de março. Kirill Dmitriev, enviado do Kremlin para assuntos econômicos, confirmou o volume de cerca de 100 milhões de barris liberados — equivalente a um dia inteiro de consumo mundial.
A Rússia responde por cerca de 10% da oferta global, com produção entre 9 e 10 milhões de barris por dia. Mesmo sob sanções desde a invasão da Ucrânia em 2022, Moscou redirecionou suas exportações para Índia e China, frequentemente com desconto sobre o preço internacional.
Aliados criticam e mercado segue pressionado
Zelensky foi direto: a decisão americana não contribui para o fim da guerra nem para a conquista da paz na Ucrânia. Macron tentou equilibrar a situação, classificando as isenções como “temporárias e limitadas” — uma forma de não romper com Washington sem endossar a medida.
Costa, pelo X, foi mais incisivo: afirmou que a pressão econômica sobre Putin é ferramenta essencial para encerrar o conflito ucraniano e que os aliados europeus não participaram da decisão.
Para Moscou, o gesto tem peso simbólico. “Sem o petróleo russo, o mercado global de energia não pode permanecer estável”, declarou Dmitriev. O Kremlin vê a isenção como reconhecimento de interesses comuns entre Washington e Moscou.
Mesmo após o anúncio, o Brent seguiu acima de US$ 100 — sinal de que o mercado não acreditou que a liberação das cargas russas seria suficiente para reverter a pressão dos preços. Os EUA também anunciaram a liberação de 172 milhões de barris de sua reserva estratégica e estudam escolta naval para petroleiros no Golfo. A Agência Internacional de Energia coordena um plano conjunto de até 400 milhões de barris com outros 31 países.