Trabalhadores acordam ainda na madrugada para escapar do calor. As mãos, protegidas hoje por luvas, já foram destruídas pelo líquido corrosivo liberado durante a torra da castanha. Em alguns casos, crianças substituem adultos no processo — e pagam o mesmo preço físico pela renda da família.
No Rio Grande do Norte, terceiro maior produtor nacional de castanha de caju, a extração artesanal sustenta comunidades inteiras, mas expõe trabalhadores a riscos que vão da queimadura química ao trabalho infantil.
O veneno dentro da casca
A castanha de caju tem três camadas: a casca, a película e a amêndoa. No mesocarpo — tecido esponjoso localizado dentro da casca — está o Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC), substância corrosiva liberada durante a torra. Ela pode queimar a pele, provocar irritações severas e até apagar as impressões digitais dos trabalhadores expostos sem proteção adequada.
Na comunidade indígena Amarelão, em João Câmara, a produção segue um rito manual: a castanha vai ao tacho para ser torrada, depois é cozida e quebrada para extrair a amêndoa. São 42 toneladas beneficiadas por semana, todas pelo método artesanal.
Sebastiana de Souza Raimundo e o marido Damião Raimundo são retratos dessa realidade. Com escolaridade até a terceira série do ensino fundamental, formaram família ainda jovens — ela com 14 anos, ele com 17 — e encontraram na castanha o sustento. No passado, ambos se machucaram diversas vezes durante a extração da amêndoa. Hoje usam luvas. Suas filhas, criadas à margem dessa labuta, seguiram outros caminhos: uma é professora, a outra, técnica de enfermagem.
Renda na entressafra
O caju sustenta quem não tem alternativa nos meses em que feijão, milho e algodão descansam. No Nordeste, 195 mil agricultores cultivam a fruta, e os pequenos produtores respondem por mais da metade desse contingente. O RN colhe 20,5 mil toneladas por ano, ficando atrás apenas do Ceará, com 102 mil toneladas, e do Piauí, com 25 mil toneladas.
Flagrante em 2023 e o ciclo que não se fecha
Em 2012, o programa Profissão Repórter já havia exposto o trabalho infantil no processamento da castanha na comunidade Amarelão. Mais de uma década depois, o problema não foi erradicado.
O caso mais recente foi registrado em 2023: 30 adolescentes foram encontrados com as mãos machucadas, em contato direto com o LCC durante a produção. A auditora do trabalho Marinalva Dantas confirma que a prática persiste e defende que famílias precisam compreender que crianças e adolescentes não devem trabalhar antes dos 18 anos.
Para a auditora, a responsabilidade não recai apenas sobre as famílias. Ela cobra que a prefeitura de João Câmara e o governo do estado do Rio Grande do Norte ofereçam suporte estruturado às comunidades produtoras — condição que aponta como indispensável para romper o ciclo de vulnerabilidade que empurra crianças para a atividade.