O Brasil começou a aplicar em janeiro de 2026 a Butantan-DV, a primeira vacina 100% nacional e de dose única contra a dengue — e a única nessa categoria no mundo.
O imunizante foi desenvolvido no Instituto Butantan pela pesquisadora Neuza Frazzati, bióloga que ingressou na instituição em 1980 e dedicou décadas à criação de vacinas para doenças negligenciadas.
Com eficácia de 75% contra a doença e acima de 90% contra formas graves, o imunizante chega em momento crítico: em 2025, o Brasil registrou 1,4 milhão de casos e 1.700 mortes por dengue.
Décadas de ciência nacional em uma única dose
O desafio de criar uma vacina contra a dengue começa pela biologia do vírus: ele circula em quatro sorotipos distintos, e um imunizante precisa proteger contra todos sem gerar desequilíbrios na resposta imunológica — um problema que levou décadas para ser resolvido.
Neuza Frazzati iniciou o projeto em 2006, quando uma onda de casos e mais de 800 mortes pressionava o sistema de saúde. Com uma equipe que chegou a quase 50 pesquisadores, ela conduziu mais de 200 experimentos em laboratório ao longo de quatro anos.
Um dos principais obstáculos foi a estabilidade do imunizante. Na forma líquida, o vírus não se mantinha viável por tempo suficiente — problema crítico para um país de dimensões continentais com infraestrutura desigual de saúde. A solução foi a liofilização: a vacina é convertida em pó e reconstituída apenas no momento da aplicação, facilitando o transporte e a conservação em regiões sem cadeia fria adequada.
Em 2011, a equipe já tinha em mãos uma vacina eficaz contra todos os sorotipos. Mas a aprovação da Anvisa só veio no fim de 2025, após a conclusão de todas as fases de estudos clínicos — incluindo ensaio com mais de 16 mil voluntários acompanhados por anos.
A durabilidade da proteção também foi confirmada: estudo publicado na Nature Medicine com os mesmos voluntários do ensaio clínico demonstrou que a eficácia contra formas graves se mantém por pelo menos cinco anos após a dose única, consolidando a Butantan-DV como referência global.
Do laboratório ao SUS: o caminho até a população
As primeiras doses da Butantan-DV foram distribuídas em janeiro de 2026, inicialmente para profissionais de saúde. O Ministério da Saúde prevê que o imunizante chegue à população geral de 15 a 59 anos no segundo semestre deste ano.
A chegada ao sistema público representa uma virada em termos de escala e custo. O SUS já oferecia a Qdenga, mas o preço e o volume de doses limitavam a cobertura nacional. Por ser produzida integralmente no Brasil, a Butantan-DV tem potencial de ampliar o acesso de forma significativa.
Neuza estima que a imunização de 50% da população pode provocar uma queda drástica no volume de casos. Com cobertura completa, a expectativa é zerar as mortes — 1.700 somente em 2025. Desde os anos 2000, mais de 18 mil brasileiros morreram pela doença e 25 milhões já foram infectados.
A pesquisadora, que também criou a vacina contra a raiva sem uso de tecidos animais — licenciada em 2008 e premiada com o Péter Murányi-Saúde —, não esconde a emoção ao lembrar da trajetória coletiva. “Não conseguiria nada sozinha”, afirmou.
Erradicar a dengue, porém, depende também do controle do Aedes aegypti. Com o aquecimento global e o clima tropical do país favorecendo a proliferação do mosquito, esse é o limite que nem uma vacina, por mais eficaz que seja, pode cruzar sozinha.