Um bombardeio destruiu a escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, no primeiro dia da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O ataque, ocorrido em 28 de fevereiro, matou ao menos 175 pessoas, segundo o Crescente Vermelho iraniano.
Dos mortos, 150 eram crianças, conforme o embaixador iraniano na ONU em Genebra. As vítimas incluem estudantes com idades entre 6 e 12 anos.
Um vídeo verificado pelo New York Times identificou um míssil Tomahawk atingindo a região — arma operada pelos EUA, não pelo Irã nem por Israel. Investigação preliminar das próprias Forças Armadas americanas aponta Washington como responsável pelo ataque.
Como aconteceu o ataque
O bombardeio atingiu Minab por volta das 10h45 do horário local — 4h15 em Brasília — numa manhã de sábado. A escola ficava ao lado de uma base da Guarda Revolucionária do Irã, força subordinada ao líder supremo do país. Cerca de 260 alunos estudavam na instituição; não está claro quantos estavam presentes no momento do ataque.
Imagens de satélite mostram que boa parte do prédio desabou. A escola abrigava unidades feminina e masculina no mesmo endereço, e estudantes de ambos os sexos figuram entre os mortos, conforme a imprensa local.
A prova do Tomahawk e o recuo de Trump
A autoria do ataque emergiu das imagens. Um vídeo verificado pelo New York Times mostra um míssil Tomahawk atingindo a área — arma utilizada pelos EUA e não operada pelo Irã nem por Israel. Três dias antes da reportagem, a Reuters revelou que investigadores militares americanos já avaliavam como provável a responsabilidade dos EUA — primeiro sinal de que o governo não conseguiria sustentar a versão de que o Irã havia atingido a escola.
O New York Times apurou que o ataque teria sido resultado de um erro de direcionamento. A investigação interna concluiu que oficiais definiram as coordenadas do alvo com dados de inteligência desatualizados — falha que explicaria como um míssil de precisão foi parar ao lado de uma escola com 260 alunos.
De culpar o Irã a admitir investigação
Na primeira semana, Donald Trump atribuiu a responsabilidade ao Irã e sugeriu que os iranianos teriam mísseis Tomahawk — hipótese descartada por especialistas. O Pentágono afirmou que “os iranianos seriam os únicos a atacar civis”, mas anunciou investigação simultânea.
Com a repercussão crescendo, Trump amenizou o discurso e confirmou que o governo apuraria o ocorrido. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, evitou comentar os dados preliminares. Na sexta-feira (13), o Departamento de Defesa afirmou ter intensificado as investigações.
O rosto das vítimas
Entre os mortos estão estudantes com idades entre 6 e 12 anos, além de funcionários da escola e pais de alunos. A mídia estatal iraniana publicou lista com 56 nomes e fotos; segundo a BBC, 48 eram crianças entre 6 e 11 anos.
O menino Mikaeil Mirdoraghi tornou-se símbolo do massacre. Sua mãe relatou ao jornal Hamshahri que o filho pediu para ser fotografado antes de sair para a aula naquela manhã. Na noite anterior, brincou de guerra com o irmão: “Vem, eu sou o Irã, irmão, você é os Estados Unidos”, disse. O corpo foi sepultado em 3 de março, durante funeral coletivo com milhares de pessoas em Minab.
Pressão em Washington e na ONU
Senadores democratas acusaram Pete Hegseth de ignorar o risco para civis em operações militares e enviaram carta ao Departamento de Defesa exigindo relatório sobre medidas de proteção a não combatentes e providências para responsabilizar eventuais culpados por falhas.
A porta-voz do escritório de direitos humanos da ONU, Ravina Shamdasani, classificou o episódio como “absolutamente horrível”. O alto comissário Volker Türk pediu investigação “rápida, imparcial e minuciosa” sobre as circunstâncias do bombardeio.
Crime de guerra e impunidade provável
Para o especialista em Relações Internacionais Uriã Fancelli, o fato de a escola ter sido atingida não configura automaticamente um crime de guerra — é preciso analisar intenção e grau de imprudência no planejamento da operação, inclusive a hipótese de negligência criminosa.
Mesmo que o ataque seja assim classificado, as chances de punição internacional são mínimas: nem os EUA nem o Irã integram o Tribunal Penal Internacional. Qualquer tentativa de acionar o Conselho de Segurança da ONU seria vetada pelos próprios Estados Unidos. Investigações internas no sistema americano permanecem como única via concreta.