A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, acusou o governo Trump de adotar táticas típicas dos adversários do bloco para enfraquecer a coesão europeia. Em entrevista ao Financial Times nesta sexta-feira (13), ela foi direta: Trump “quer dividir a Europa”.
Kallas listou tarifas, ameaças econômicas e a pressão pela anexação da Groenlândia como instrumentos de coerção de Washington contra aliados europeus — práticas que, segundo ela, espelham as táticas dos adversários históricos do bloco.
MAGA como vetor de fragmentação europeia
Além das pressões econômicas, Kallas apontou o crescimento do movimento MAGA nos EUA como risco direto à unidade europeia. Na avaliação da diplomata, o avanço do trumpismo fortalece partidos de extrema-direita, populistas e eurocéticos no continente — atores que historicamente trabalham contra o projeto de integração europeia.
A vice-presidente do bloco classificou como “complicada” a relação atual com os Estados Unidos. A tensão se intensificou após a Casa Branca publicar documento questionando o compromisso americano com a defesa militar dos aliados europeus — um sinal de alarme ao qual Kallas pediu atenção redobrada.
Entre a dependência e a autonomia estratégica
A diplomata reconheceu que as atitudes de Trump reforçam os argumentos favoráveis a uma Europa militarmente mais autônoma. Mas fez uma ressalva importante: agir com pressa nessa direção pode ser contraproducente.
No curto prazo, Kallas defende apaziguar os ânimos de Washington enquanto o bloco avança na construção de capacidade própria. “Precisamos comprar da América porque não temos os ativos, as possibilidades ou as capacidades de que precisamos”, afirmou. “Ao mesmo tempo, também precisamos investir na nossa própria indústria de defesa para não colocarmos todos os ovos no mesmo cesto.”
Kallas também reconheceu as preocupações dos países da Europa Oriental, especialmente os mais próximos da fronteira russa. Para esses governos, o risco de distanciar os EUA do continente é real e palpável — e a ex-primeira-ministra da Estônia afirmou que esse receio “faz sentido”.
Ainda assim, a diplomata defendeu firmeza estratégica no longo prazo. “Se tomarmos estas medidas fortes, isso também terá um efeito de retaliação, é doloroso. Mas, a longo prazo, penso que precisamos ser fortes, porque é isso que eles também entendem”, disse Kallas.
A posição da chefe da diplomacia europeia traduz o dilema central que as capitais do bloco enfrentam: como preservar a aliança transatlântica enquanto reduzem uma dependência que Trump — e futuros governos americanos — podem usar como alavanca de pressão política.