O Itamaraty revogou o visto de Darren Beattie, assessor do presidente dos EUA Donald Trump, invocando o princípio da reciprocidade das relações internacionais. A decisão foi anunciada na sexta-feira (13).
Beattie pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão da Papudinha, em Brasília, na próxima semana. A justificativa oficial do governo brasileiro é que ele omitiu o real motivo da viagem e planejou reuniões políticas no país.
O precedente utilizado é direto: os EUA cancelaram, em agosto de 2025, os vistos da esposa e da filha de dez anos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O princípio da reciprocidade é uma prática consolidada nas relações internacionais, mas sem força de lei. Ele estabelece que um Estado tende a tratar o outro da mesma forma como é tratado — criando uma dinâmica de igualdade jurídica entre nações soberanas.
O precedente que embasou a decisão
Em agosto de 2025, os EUA cancelaram os vistos da esposa e da filha de dez anos de Padilha. O visto do próprio ministro já estava vencido à época. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo g1, esse episódio criou o fundamento que o Brasil utilizou agora para barrar Beattie.
“A questão ocorrida com o assessor de Trump baseia-se no precedente de que o ministro Padilha teve o visto negado para entrar nos EUA. Sendo assim, houve reciprocidade ao negar o visto de uma autoridade dos EUA”, explica André Araújo, professor de Relações Internacionais da FESPSP.
O episódio teve início quando a defesa de Bolsonaro formalizou ao ministro Alexandre de Moraes o pedido para receber Beattie na Papudinha — movimento que expôs o caráter político da visita e desencadeou a reação do Itamaraty.
Da autorização à revogação
Moraes inicialmente autorizou o encontro, mas marcou a visita para a quarta-feira (18), data convencional de visitação na unidade prisional. A defesa pediu nova data por causa da agenda do norte-americano. Paralelamente, o ministro consultou o Itamaraty sobre a agenda diplomática de Beattie no Brasil.
Em resposta, o ministério afirmou que o encontro entre um assessor de Trump e o ex-presidente condenado “pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”. Com isso, Moraes retirou a autorização para a visita.
Dias antes da revogação, o Itamaraty havia convocado o encarregado de negócios americano Gabriel Escobar para explicar a presença de Beattie no Brasil — gesto protocolar que antecipou a escalada diplomática.
A viagem estava oficialmente justificada como participação em um evento sobre terras raras e minerais críticos em São Paulo. O governo brasileiro, porém, identificou que o verdadeiro objetivo era político — a reunião com Bolsonaro na Papudinha.
Antes mesmo de o Itamaraty confirmar a revogação, o presidente Lula havia condicionado publicamente a entrada do assessor: Beattie só entraria no país quando Padilha pudesse entrar nos Estados Unidos. A declaração antecipou o caminho que o governo seguiria.
Mais Médicos e a tensão bilateral
O histórico de Padilha com Washington vem de longe: ele chefiou o Ministério da Saúde em 2013, quando foi criado o programa Mais Médicos. Recentemente, o Departamento de Estado dos EUA revogou vistos de funcionários do governo brasileiro ligados ao programa — tensão que compõe o pano de fundo das relações bilaterais.
A embaixada americana limitou-se a afirmar que Beattie viajaria ao Brasil “para promover a agenda de política externa America First” — doutrina que prioriza os interesses estratégicos e econômicos dos EUA nas relações internacionais, associada ao governo Trump.
Bolsonaro, alvo central da visita, foi internado nesta sexta-feira (13) no Hospital DF Star, em Brasília, com broncopneumonia e está em tratamento na UTI. Ele cumpre pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado.