O programa piloto anunciado pela Novo Nordisk para fornecer o Wegovy gratuitamente pelo SUS encontrou uma contradição logo de saída: os dois hospitais públicos apontados como parceiros negam que exista qualquer acordo formal com a farmacêutica.
As instituições — o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, e o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro — afirmam que canetas injetáveis só podem ser adquiridas via licitação, não por parceria direta.
A Novo Nordisk, por sua vez, admitiu que não há nada formalizado, mas diz que há tratativas em andamento para um programa de acesso à semaglutida no sistema público.
O que a empresa anunciou
Na semana passada, a Novo Nordisk divulgou o lançamento de um programa de acesso equitativo no Brasil para disponibilizar as canetas de Wegovy a pacientes do SUS. Segundo a empresa, o projeto teria duração de dois anos e produziria dados clínicos, econômicos e sociais sobre o impacto da semaglutida injetável no tratamento da obesidade grave.
O programa envolveria o GHC e o IEDE, além de uma terceira unidade ainda não definida. A proposta buscaria contribuir com evidências que apoiassem futuras decisões em saúde pública.
A versão dos hospitais
O IEDE informou que já utiliza canetas injetáveis no tratamento da obesidade, mas esclareceu que há uma licitação aberta para compra de medicamentos — processo ainda não concluído. O instituto não reconheceu o programa como parceria formal com a farmacêutica.
O Grupo Hospitalar Conceição foi ainda mais direto: afirmou que não possui qualquer programa formalizado com a Novo Nordisk sobre semaglutida, contrariando o que foi divulgado pela empresa.
Procurada, a farmacêutica enviou um comprovante de termo de cooperação com o IEDE — mas referente à logística reversa de embalagens de canetas, não ao novo programa. A empresa disse que o projeto seria uma evolução dessa parceria anterior, mas confirmou ao g1 que não há nada formalizado, apenas tratativas.
A barreira de custo que motivou a Conitec a vetar a semaglutida no SUS em 2024 não deve cair tão cedo: mesmo com a patente do Ozempic expirando em março, os similares nacionais devem chegar às farmácias apenas no segundo semestre, ainda com desconto limitado.
Contexto regulatório e tensão de interesses
Atualmente, as canetas de semaglutida não estão disponíveis de forma ampla no SUS. Em 2024, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou não incorporar à rede pública os medicamentos à base de semaglutida e liraglutida — substâncias usadas em canetas injetáveis para perda de peso.
O alto custo foi apontado como principal barreira para a incorporação. Alguns centros especializados, como o próprio IEDE, utilizam esses medicamentos em casos específicos, mas não como opção disponível a qualquer paciente no sistema.
O episódio expõe a tensão entre o interesse da indústria farmacêutica em gerar evidências clínicas no sistema público — o que pode facilitar futuras incorporações e aprovações — e as regras de aquisição hospitalares, que exigem processo licitatório para qualquer compra de medicamentos, independentemente de quem os ofereça.
Em nota, a Novo Nordisk afirmou que “reitera seu compromisso com a transparência e com o fortalecimento da sustentabilidade dos sistemas de saúde, visando ampliar o acesso a tecnologias inovadoras de forma responsável”.