Uma semana após o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, os efeitos na economia mundial já vão muito além da alta do petróleo.
O barril Brent ultrapassou US$ 100 no início de março — nível inédito desde 2022 —, mas especialistas alertam que as consequências mais profundas estão se formando em setores menos visíveis.
O fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial e um terço do suprimento global de fertilizantes — desencadeou uma cascata que ameaça colheitas, cadeia de medicamentos e produção de semicondutores.
Fertilizantes em crise no pior momento do ano
O Estreito de Ormuz é a principal rota de escoamento de fertilizantes nitrogenados produzidos na região — Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os maiores exportadores globais do insumo. Com o bloqueio, um terço do suprimento mundial de fertilizantes ficou retido.
A situação piorou quando a Qatar Energy, um dos maiores produtores de ureia do mundo, suspendeu operações após ataques de drones e mísseis iranianos cortarem o fornecimento de gás. O momento é crítico: 25% das importações de fertilizantes dos EUA ocorrem entre março e abril, justamente quando agricultores do Hemisfério Norte preparam o plantio.
No Porto de Nova Orleans, o preço saltou de US$ 516 para US$ 683 por tonelada métrica na primeira semana de guerra. A alta é agravada pela decisão da China — maior exportadora mundial de fertilizantes nitrogenados — de suspender exportações de fosfato e restringir ureia até agosto de 2026. A cotação da ureia subiu US$ 39 em apenas 24 horas desde o início do conflito, e analistas alertam que produtores brasileiros devem sentir o impacto nas safras do segundo semestre — justamente quando compram fertilizantes para a soja e o milho.
Dubai: o gargalo farmacêutico global
Os ataques iranianos a Dubai criaram um gargalo crítico para a distribuição mundial de medicamentos. A cidade abriga o aeroporto internacional mais movimentado do mundo — 95 milhões de passageiros em 2025 — e o Porto de Jebel Ali, maior do Oriente Médio, onde 400 empresas farmacêuticas de 60 países operam.
A Índia, maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e responsável por 60% das vacinas produzidas no planeta, utiliza Dubai como ponto estratégico de distribuição. O terminal Emirates SkyPharma e o Porto de Jebel Ali são passagem essencial para remédios enviados aos EUA, Reino Unido, Brasil, França e África do Sul.
Com as operações interrompidas, rotas alternativas exigem dias extras e custos mais altos, comprometendo preço e disponibilidade de medicamentos em múltiplos continentes. Em 2020, 50% dos produtos farmacêuticos de Dubai — avaliados em US$ 21,8 bilhões — passaram pelo porto de Jebel Ali.
Enxofre, semicondutores e o efeito dominó industrial
O Oriente Médio responde por 24% da produção mundial de enxofre — subproduto do refino de petróleo e gás essencial para fertilizantes, extração de metais e fabricação de chips. O bloqueio regional já produziu efeitos concretos na cadeia industrial global.
Na Indonésia, responsável por mais de 50% do níquel mundial, mineradoras anunciaram cortes de produção na primeira semana de guerra após bloqueios no fornecimento dos países do Golfo — que respondiam por 75% do enxofre usado por essas empresas. Produtores de cobre na África enfrentam situação semelhante. O fechamento dos aeroportos de Dubai e Doha e as interrupções no fornecimento de alumínio e níquel do Golfo aprofundam a cascata de efeitos sobre a cadeia industrial global que o conflito vinha desencadeando desde o primeiro dia.
O ácido sulfúrico — derivado do enxofre — é componente-chave na fabricação de semicondutores. Uma ruptura no abastecimento pode reproduzir, em escala ampliada, o cenário da pandemia de covid-19, quando a escassez de chips paralisou linhas de produção de smartphones, computadores e veículos. Desta vez, o risco é agravado pela demanda acelerada das empresas de inteligência artificial por processadores.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU alertou que “o aumento repentino dos preços de alimentos e combustíveis pode ter um efeito dominó que agravará a fome para populações vulneráveis na região e em outras partes do mundo”. Analistas preveem que consumidores começarão a sentir o impacto nos preços dos alimentos dentro de um a três meses.