Mais da metade dos casos de Alzheimer na América Latina poderia ser prevenida. O dado foi apresentado em fevereiro pela pesquisadora Lucía Crivelli, da Fundação FLENI, durante painel da Associação Internacional de Alzheimer realizado no Uruguai.
Crivelli apontou que o foco em prevenção ainda é insuficiente na região. Hoje, cerca de 10 milhões de latino-americanos vivem com algum tipo de demência — número que deve triplicar até 2050.
Os fatores de risco variam entre países. No México, o foco deveria estar em hipertensão, obesidade, depressão e isolamento social. No Brasil, as prioridades são escolaridade, hipertensão, perda auditiva e obesidade — e a estimativa é de que o país tenha cerca de 2 milhões de pessoas com algum tipo de demência.
Crivelli enumerou um conjunto amplo de fatores de proteção: atividade física regular, cessação do tabagismo, controle do peso, colesterol, glicemia e consumo de álcool. Redução da poluição, prevenção da depressão, de traumatismos cranianos e da perda de audição e visão completam a lista, com destaque para as conexões sociais como suporte contínuo.
O controle do álcool tem urgência particular no Brasil: mortes relacionadas à bebida entre mulheres cresceram 20% em uma década, segundo levantamento do CISA, reforçando a gravidade do cenário que alimenta o risco de demência.
A obesidade, fator de risco destacado para o Brasil, esbarra em barreiras culturais: dois terços dos pacientes obesos ainda atribuem a condição a escolhas pessoais, dificultando avanços nas políticas de prevenção em saúde pública.
Da Finlândia à América Latina
A metodologia que inspira o projeto vem do estudo FINGERS, conduzido na Finlândia, onde participantes do grupo de intervenção alcançaram melhora de 25% na pontuação cognitiva global ao trabalhar cinco áreas de saúde simultaneamente. O sucesso levou à criação da rede World-Wide FINGERS, que adapta a abordagem para diferentes culturas e países.
Na América Latina, onze países integram o projeto LatAm-FINGERS: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Uruguai. A iniciativa representa uma das maiores apostas em pesquisa preventiva sobre demência na região.
O debate foi promovido pela AAIC em eventos simultâneos realizados no final de fevereiro em Austrália, Reino Unido, Nigéria, Kosovo, Costa Rica e Uruguai. Cada encontro foi desenhado para abordar a doença com lentes locais — e o painel do Uruguai trouxe o diagnóstico mais direto sobre a realidade latino-americana.