A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, expira em 20 de março no Brasil — mas quem espera pagar menos pela injeção emagrecedora neste mês vai se decepcionar.
A versão nacional do medicamento só deve chegar às farmácias no segundo semestre de 2026, segundo a EMS, maior farmacêutica do país. O Itaú BBA estima o lançamento para agosto.
Mesmo quando chegarem, as canetas brasileiras terão desconto limitado: registradas como similares — não genéricos —, precisam oferecer redução mínima de apenas 20%, colocando o produto a partir de R$ 1.039,76, frente aos R$ 1.299,70 do Ozempic.
Gargalo regulatório e industrial
A Anvisa avalia 14 pedidos de registro para produção de semaglutida, mas concederá no máximo três autorizações por semestre — ritmo que estende o processo até meados de 2028. As primeiras aprovações devem sair nas próximas semanas.
A EMS, que deve ser uma das primeiras a receber o aval, afirma que suas canetas só chegarão às prateleiras ao menos três meses após o registro. Segundo Marcus Sanchez, vice-presidente da farmacêutica, para um medicamento de menor complexidade seria possível lançar em 30 a 45 dias, mas este não pode ir ao mercado em menos de 90 dias.
Produzir canetas emagrecedoras é muito mais complexo do que fabricar comprimidos. As instalações exigem rigoroso controle de esterilidade, envase especializado e logística refrigerada. A EMS investiu R$ 1,2 bilhão em sua planta em Hortolândia (SP) — e estima que a fábrica só se pague em 2030.
Similares em vez de genéricos — e a reação da Novo Nordisk
A maioria dos registros submetidos à Anvisa é de similares, não genéricos. Enquanto genéricos exigem desconto mínimo de 35% sobre o produto de referência, similares só precisam oferecer 20%. O Itaú BBA projeta queda máxima de 30% no curto prazo — canetas em torno de R$ 900 —, com redução de 50% apenas em cinco anos, quando a concorrência estiver consolidada.
A Novo Nordisk não pretende assistir passivamente à chegada dos concorrentes. A farmacêutica dinamarquesa anunciou um programa piloto para levar o Wegovy ao SUS, iniciativa que também reforça sua imagem às vésperas da queda de patente. No varejo, já lançou promoções: a dose inicial do Wegovy sai gratuitamente na compra de outra unidade de dosagem mais alta.
A empresa também constrói uma fábrica em Montes Claros (MG), com investimento de R$ 6,4 bilhões, para produzir suas canetas localmente. Ainda avalia recorrer ao STF para ampliar o prazo de proteção da patente — especialistas, porém, consideram uma vitória improvável.
Mercado em expansão e disputa cada vez mais acirrada
O segmento de canetas emagrecedoras dobrou de faturamento em 2025 e abriu 2026 com alta de 34% em relação à média mensal do ano anterior. O Itaú BBA projeta R$ 24,6 bilhões para este ano e R$ 50,8 bilhões até 2030, impulsionados pelo uso crescente no tratamento de doenças cardiológicas e pelo interesse estético: o Brasil é o segundo país do mundo em realização de procedimentos estéticos.
No cenário competitivo, o Mounjaro, da Eli Lilly, já ultrapassou os produtos da Novo Nordisk: em janeiro de 2026, vendeu R$ 850 milhões — quase o dobro dos R$ 453,2 milhões somados pelos três principais medicamentos à base de semaglutida da dinamarquesa no mesmo período.
Para rentabilizar os investimentos, a EMS também mira o exterior: planeja exportar canetas de liraglutida para os EUA a partir de 2027, com faturamento esperado de US$ 60 milhões — plano ameaçado pelas sobretaxas impostas pelo governo Trump ao Brasil.
No horizonte, a retatrutida, da Eli Lilly, ainda em fase de testes e prevista para lançamento no Brasil em 2027, promete redução de até 25% do peso corporal. Enquanto isso, a Polícia Federal já investiga o mercado ilegal de canetas: a empresa americana estima que o equivalente a 36,2 milhões de doses de tirzepatida possam ter circulado ilegalmente no país por meio de farmácias de manipulação.