Um estudo publicado na revista científica The Lancet projeta que o câncer colorretal provocará 635 mil mortes e perdas bilionárias de produtividade no Brasil até 2030.
A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc) e do Instituto Nacional de Câncer (Inca), analisou o impacto econômico indireto da doença entre 2001 e 2030, com detalhamento por região do país.
Os resultados expõem crescimento expressivo da mortalidade — 120% nos últimos 20 anos — e desigualdades regionais profundas no acesso ao diagnóstico e ao tratamento.
Diagnóstico tardio e desigualdade agravam o quadro
Cerca de 65% dos casos são diagnosticados em estágio avançado, quando as possibilidades de cura são reduzidas. O atraso no início do tratamento é mais frequente entre pessoas pretas, pardas e com baixo nível de escolaridade — especialmente aquelas atendidas pelo SUS que precisam se deslocar para fora de seus municípios de residência.
Conhecido também como câncer de intestino, é o segundo tipo mais incidente em mulheres (após o de mama) e em homens (após o de próstata) no Brasil. A doença se instala com tumores no cólon e no reto.
As regiões Norte e Nordeste, apesar de registrarem os menores impactos econômicos totais, concentram os maiores crescimentos relativos de mortalidade e de anos de vida produtiva perdidos — sinalizando desigualdades estruturais no acesso à saúde. Sul e Sudeste, mais avançadas na transição epidemiológica, respondem pelas maiores perdas absolutas. Ainda assim, óbitos individuais no Norte e Nordeste geram maior número de anos produtivos perdidos por pessoa.
A metodologia adotada foi a do capital humano: foram computados os anos potenciais de vida produtiva perdidos e as quedas de produtividade de quem morreu pela doença ainda em idade ativa. O recorte considerou óbitos a partir dos 15 anos, reconhecendo que no Brasil é comum trabalhar além da aposentadoria.
Fatores de risco e projeções para as próximas décadas
O envelhecimento populacional combinado a dietas ricas em ultraprocessados, sedentarismo e obesidade impulsiona o avanço da doença. Projeções apontam crescimento de 21% nos casos entre 2030 e 2040.
O sedentarismo e a obesidade — dois dos principais fatores de risco para o câncer colorretal — já afetam mais de 16,5 milhões de jovens brasileiros, num cenário em que pesquisadores projetam que mais da metade da população infantojuvenil terá sobrepeso até 2040, conforme levantamento sobre obesidade infantil no Brasil.
Para o período entre 2026 e 2028, o Inca estima 518 mil novos casos anuais de câncer no país, excluídos os tumores de pele não melanoma.
Os autores defendem uma abordagem em três eixos: prevenção primária para reduzir fatores de risco, rastreamento para detecção precoce e remoção de lesões precursoras, e garantia de acesso oportuno ao tratamento. Os dados, segundo os pesquisadores, podem orientar políticas públicas regionalizadas e subsidiar avaliações econômicas de novas estratégias oncológicas — com potencial direto de salvar vidas e mitigar o impacto das mortes prematuras sobre famílias e comunidades.