As mortes relacionadas ao álcool entre mulheres brasileiras cresceram 20% em dez anos e as internações subiram 41% no mesmo período, revela o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). O levantamento, baseado em dados do Datasus, aponta crescimento mais acelerado entre mulheres do que entre homens — grupo em que apenas as hospitalizações aumentaram, em ritmo menor.
O consumo excessivo também avançou. Segundo o Vigitel, a proporção de mulheres que relataram episódios de abuso de álcool passou de 9,2% para 15,7% entre 2006 e 2024 no Brasil.
Por que mulheres são biologicamente mais vulneráveis ao álcool
A biologia explica parte do problema. Mulheres têm menos água no corpo e menos enzimas que metabolizam o álcool — o que faz com que desenvolvam doenças relacionadas à bebida mais cedo e com menor consumo do que os homens.
“Falar sobre o impacto do uso nocivo de álcool por mulheres não é moralismo, é uma questão de saúde pública”, afirma a psiquiatra Natalia Haddad, presidente do CISA. Segundo ela, o conhecimento é “uma importante ferramenta de prevenção”: “Precisamos que, especialmente as mulheres, conheçam os impactos do álcool em sua saúde para fazerem escolhas mais saudáveis”.
Uma pesquisa do Ipec com adultos de 18 a 34 anos, realizada a pedido do CISA em 2023, mostrou que a maioria dos entrevistados desconhecia essa diferença fisiológica — e demonstrou resistência ao receber a informação.
Danos ao longo de todas as fases da vida
Os efeitos do álcool se manifestam de formas diferentes conforme a fase da vida da mulher. Na idade reprodutiva, o consumo pode alterar o ciclo menstrual, prejudicar a ovulação e reduzir as chances de engravidar, além de trazer riscos ao desenvolvimento fetal.
Na perimenopausa e menopausa, a bebida pode intensificar ondas de calor, sudorese noturna e alterações de humor. Na pós-menopausa, a combinação com a queda do estrogênio pode comprometer a absorção de cálcio, elevar a pressão arterial e interferir no metabolismo hormonal.
No campo oncológico, cada 10 gramas de álcool consumidos diariamente elevam em cerca de 7% o risco de câncer de mama. Mesmo uma a duas doses por dia podem aumentar esse risco entre 30% e 50%.
Álcool e exposição à violência
Os impactos do consumo abusivo não se limitam à saúde física. A coordenadora do CISA e doutora em sociologia Mariana Thibes aponta que o álcool também aumenta a exposição feminina a situações de risco.
“O álcool reduz a percepção de risco, o que aumenta a vulnerabilidade a acidentes, sexo inseguro e situações de violência doméstica e sexual”, afirma Thibes. A pesquisa Ipec de 2023 reforça: homens e mulheres entrevistados reconheceram que o consumo eleva a suscetibilidade feminina a abusos e assédio.
O dado se soma a um cenário já alarmante: em 2024, 148 mulheres foram mortas no Brasil mesmo com medida protetiva vigente, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública — evidência de que a vulnerabilidade à violência doméstica vai muito além do consumo de álcool.
Para o CISA, informar é o principal caminho. A entidade defende que o debate sobre álcool e saúde feminina precisa sair dos dados e chegar ao cotidiano das mulheres, com políticas públicas que reconheçam essa vulnerabilidade específica.