Uma pesquisa de mestrado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que as mães solo brasileiras ganham, em média, 40% menos do que pais com cônjuge — R$ 2.322 contra R$ 3.869 mensais — e lideram o ranking da precariedade no mercado de trabalho.
O estudo, conduzido por Mariene Ramos com dados da Pnad Contínua 2022 do IBGE, analisa o perfil de mais de 10,9 milhões de mulheres que chefiam lares sozinhas no país — contingente equivalente à população de Portugal ou da Bélgica.
Divulgado no Dia Internacional da Mulher, o trabalho expõe desvantagem estrutural que vai além do salário: baixa cobertura previdenciária, concentração no serviço doméstico e dependência de benefícios sociais.
Retrato da precariedade
Com taxa de ocupação de apenas 50,2%, as mães solo estão distantes dos pais com cônjuge (81%) e até das mães casadas (53,2%). A diferença se aprofunda na previdência: só 28,3% contribuem para o INSS, ante 54,8% dos pais com parceira — dado que compromete a aposentadoria futura de milhões de mulheres.
A concentração no serviço doméstico é outro indicador crítico. Quase 22% das mães solo trabalham como domésticas, percentual quase 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge (0,8%) e quase o dobro das mães casadas (11,8%). “As mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento — sofrem também na precariedade do trabalho”, afirma Mariene.
Perfil racial e escolaridade
Seis em cada dez mães solo (62%) são negras — proporção superior à de todos os outros arranjos familiares analisados. Em escolaridade, mais de 55% não completaram o ensino médio, e apenas 13,7% têm diploma universitário, abaixo das mães casadas (19,9%) e das mulheres sem filhos (22,1%).
A pesquisadora ressalta que a escolaridade não explica tudo: “Ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário um pouco mais baixo”, destacando a discriminação estrutural que pesa sobre essas trabalhadoras.
Geração sanduíche
Um terço das mães solo (33,5%) vive com pessoas acima de 60 anos — mais que o dobro das mães casadas (15,7%) —, acumulando a pressão simultânea pelo cuidado de filhos e pais idosos. Consequência direta dessa inserção precária: 57% recebem algum benefício social do Estado, contra 19% dos pais com cônjuge. Mariene interpreta o dado não como privilégio, mas como sintoma do fracasso do mercado em absorver adequadamente essa força de trabalho.
O que a pesquisa propõe
Mariene Ramos defende três eixos de política pública: ampliar a oferta de creches em tempo integral, investir na qualificação profissional das mães solo e reconhecer formalmente o trabalho de cuidado não remunerado.
A urgência das creches tem respaldo nos dados: em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas no país, segundo a ONG Todos pela Educação — ainda aquém da meta de 50% do Plano Nacional de Educação. Entre as famílias mais pobres, o acesso cai para 30,6%, enquanto nas mais ricas chega a 60%. Quase 2,3 milhões de crianças ficaram sem vaga por ausência de unidades próximas.
A penalidade pela maternidade tem rastros documentados no mercado formal. Mais de 380 mil mulheres foram demitidas em até dois anos após o término da licença-maternidade entre 2020 e 2025, segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho — um dos vetores que empurram mães para a informalidade e para a chefia solo de domicílios. As proteções formais também encolheram: em 2024, uma auditoria eliminou 71% das empresas do Programa Empresa Cidadã, concentrando o benefício da licença estendida justamente entre trabalhadoras de maior renda e escolaridade — o oposto do perfil das mães solo.
Estudo do Made-USP, divulgado no mesmo Dia Internacional da Mulher, mostra que mulheres brasileiras trabalham em média 58,1 horas semanais somando tarefas remuneradas e não remuneradas, ante 50,3 horas dos homens. O cuidado não pago consome 21,3 horas femininas por semana — mais que o dobro das 8,8 horas masculinas. Para Mariene, adaptar o mercado e as políticas a essa realidade tem impacto coletivo: “Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha.”