Medicamentos GLP-1, como a semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy —, mostram efeito inédito no combate a vícios em álcool, opioides, cocaína, nicotina e cannabis.
Um estudo com mais de 600 mil veteranos americanos com diabetes tipo 2 registrou 50% menos mortes por uso de substâncias entre quem usava esses remédios, além de 39% menos overdoses e 26% menos hospitalizações relacionadas a drogas.
Os dados, levantados ao longo de três anos, sugerem que os GLP-1 podem atuar sobre uma vulnerabilidade comum ao vício — independente da substância envolvida.
Por que o GLP-1 age no circuito do vício
O hormônio GLP-1 não é produzido apenas no intestino. Seus receptores estão presentes em regiões do cérebro ligadas à recompensa, à motivação e ao estresse — o mesmo circuito sequestrado pela dependência química. Em doses terapêuticas, os medicamentos atravessam a barreira hematoencefálica e reduzem a sinalização de dopamina, tornando substâncias viciantes menos gratificantes.
Em modelos animais, roedores tratados com GLP-1 beberam menos álcool, consumiram menos cocaína de forma autoadministrada e demonstraram menos interesse pela nicotina. Em primatas, a semaglutida reduziu o consumo voluntário de álcool sem causar náusea — indicando que o medicamento diminuiu o valor de recompensa da bebida, e não apenas o apetite.
Os números da maior análise já realizada
A pesquisa analisou registros de saúde de mais de 600.000 pacientes com diabetes tipo 2 no sistema do Departamento de Veteranos dos EUA, acompanhados por três anos com metodologia equivalente a ensaios clínicos randomizados.
Entre quem já tinha transtorno por uso de substâncias, os usuários de GLP-1 apresentaram 50% menos mortes por uso de substâncias, 39% menos overdoses, 26% menos hospitalizações e 25% menos tentativas de suicídio — cerca de 12 eventos graves a menos por mil pacientes, incluindo duas mortes.
Para quem não tinha histórico de dependência, os GLP-1 reduziram em 18% o risco de transtorno por uso de álcool, 25% para opioides e aproximadamente 20% para cocaína e nicotina — seis a sete novos diagnósticos a menos por mil usuários ao longo de três anos.
O estudo não está isolado. Uma análise nacional sueca com 227.000 pessoas com transtorno por uso de álcool mostrou que usuários de GLP-1 tinham 36% menos risco de hospitalização por álcool — mais do que o dobro da redução de 14% observada com naltrexona, o medicamento aprovado com melhor desempenho nessa comparação.
Outros levantamentos associam os GLP-1 a taxas menores de novos transtornos relacionados ao álcool e à cannabis, menos consultas por dependência de nicotina e menor risco de overdose de opioides. Mais de uma dúzia de ensaios clínicos voltados especificamente para dependência já estão em andamento ou com inscrições abertas.
O potencial anticraving do Ozempic chega em um momento em que a percepção pública sobre obesidade ainda ignora sua complexidade biológica — dois terços dos pacientes obesos ainda atribuem a doença a escolhas pessoais, segundo pesquisa global recente, revelando um desafio cultural que pode dificultar a adoção desse tratamento também no campo dos vícios.
O que ainda está em aberto
Permanecem dúvidas sobre o efeito rebote após a interrupção do medicamento — com obesidade, o apetite retorna quando o GLP-1 é suspenso, e não se sabe se o mesmo ocorreria com a fissura. Também não está claro se os benefícios persistem com uso prolongado ou se podem reduzir a motivação cotidiana, já que o circuito de recompensa regula não apenas o desejo, mas também iniciativa e desempenho. Os GLP-1 ainda não têm aprovação para tratamento de dependência, mas podem ser considerados por quem já os usa para diabetes ou obesidade e também enfrenta algum vício.