A Novo Nordisk vai disponibilizar o Wegovy — semaglutida injetável — para pacientes do SUS no Brasil por meio de um programa piloto de dois anos em centros da rede pública.
A iniciativa começa em três unidades: o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre; o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro; e um terceiro município ainda não definido.
Como o programa vai funcionar
Os pacientes incluídos serão aqueles já acompanhados nesses serviços. Cada instituição definirá seus próprios critérios técnicos de elegibilidade, conforme seus protocolos assistenciais e a realidade local. O objetivo declarado da farmacêutica é gerar dados sobre o tratamento da obesidade grave no contexto do sistema público.
O programa tem duração prevista de dois anos — período em que a Novo Nordisk fornecerá o medicamento aos pacientes selecionados pelas instituições participantes.
Por que o Wegovy ainda não está no SUS
A chegada do Wegovy ao SUS por via privada ocorre num cenário de impasse regulatório. Em 2024, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou não incorporar medicamentos à base de semaglutida e liraglutida à rede pública.
O principal obstáculo foi o custo: estimativas do Ministério da Saúde apontaram que atender a demanda com esses medicamentos custaria até R$ 4,1 bilhões em cinco anos — valor que poderia alcançar R$ 6 bilhões no mesmo período em casos de tratamento contínuo.
Atualmente, não há nenhum medicamento disponível no SUS especificamente para o tratamento da obesidade.
Além do controle de peso, a semaglutida — princípio ativo do Wegovy — vem acumulando evidências sobre outros efeitos clínicos. Um estudo com mais de 600 mil pacientes registrou 50% menos mortes por uso de substâncias entre usuários do medicamento, ampliando o debate sobre o alcance terapêutico da molécula.
O anúncio ocorre em meio a um quadro preocupante de saúde pública. Dados do Sisvan mostram que 33% das crianças e adolescentes brasileiros já têm excesso de peso, e especialistas alertam que o acesso a tratamentos eficazes ainda é restrito à população com maior poder aquisitivo.
O projeto piloto pode servir como base de evidências para uma eventual reavaliação da incorporação ao SUS — mas, sem nova decisão da Conitec, o acesso amplo pelo sistema público segue indefinido.