Desde 28 de fevereiro, o Irã vive um apagão digital em meio à ofensiva militar lançada por Estados Unidos e Israel. A conectividade caiu para 1% dos níveis normais e permanece estagnada.
Na quinta-feira (5), a plataforma NetBlocks registrava mais de 120 horas ininterruptas de bloqueio. Para a maioria da população, apenas a intranet local do regime permanecia disponível.
O corte isola famílias, impede a cobertura jornalística independente e priva civis de alertas de evacuação emitidos pelo Exército israelense antes dos ataques.
Apagão como instrumento de controle
Bloqueios de internet não são novidade no Irã. O regime teocrático costuma cortar o acesso à rede durante protestos em massa — tática já usada na onda de manifestações de janeiro, que teria deixado milhares de mortos após repressão violenta, e durante a guerra de 12 dias com Israel em junho. Desta vez, porém, o corte coincide com uma ofensiva armada de escala muito maior.
Com o bloqueio, tarefas cotidianas como usar o Google Maps ou buscar informações em sites tornaram-se impossíveis para a maioria da população. Apenas a intranet local — extremamente limitada — segue disponível dentro do país.
Chips brancos e acesso desigual
Enquanto a população comum está desconectada, mais de 50 mil “chips brancos” — cartões pré-pagos anônimos — circulam entre pessoas ligadas ao regime. Esses usuários continuam ativos nas redes sociais, disseminando propaganda oficial e narrativas enganosas, ocupando o vácuo de informação criado pelo apagão.
Para contornar o bloqueio, parte dos iranianos recorre a ferramentas como o Psiphon, VPNs e assinaturas ilegais da Starlink, serviço de internet via satélite de Elon Musk. As autoridades iranianas já emitiram alertas proibindo conexões não autorizadas à rede.
A situação é ainda mais grave porque o Exército israelense diz emitir alertas antes de cada bombardeio — mas com a internet cortada, esses avisos simplesmente não chegam à população civil exposta aos mesmos ataques que, em quatro dias, já haviam matado ao menos 787 pessoas no Irã, conforme apurado pelo Tropiquim em cobertura dos bombardeios às defesas aéreas iranianas.
Diáspora sem notícias, ativismo sufocado
A separação forçada do mundo digital tem peso emocional direto para quem tem família no Irã. Hayberd Avedian, membro do conselho da associação juvenil Ayande e.V., na Alemanha, resume o sentimento: “Mesmo que eu não veja nenhum ataque onde eles moram, o medo permanece porque muitas vezes não consigo contatá-los. Até mesmo uma simples ida à padaria pode ser perigosa.”
Telefonar para o Irã a partir do exterior — seja para celular ou telefone fixo — é quase impossível. Alguns iranianos relatam apenas breves janelas do dia em que conseguem enviar mensagens.
Tahireh Panahi, pesquisadora da Universidade de Kassel em direito da tecnologia da informação, classifica o bloqueio como “não apenas um problema individual, mas também social”. Segundo ela, o apagão dificulta a organização de protestos e garante que informações sobre ações do regime não cheguem ao exterior.
A ausência de alertas de evacuação tem peso concreto: nos primeiros quatro dias da ofensiva, quase 900 pessoas morreram em oito países, com o Irã concentrando a maior parte das vítimas — muitas em regiões que não tiveram como ser avisadas a tempo. “O fim do bloqueio da internet é essencial”, resume Panahi. “Muitos iranianos exilados se sentem responsáveis por garantir que as informações saiam do país.”