Uma semana de guerra no Irã já suspendeu cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás natural — e os efeitos devem se estender por meses, mesmo que o conflito termine logo.
O petróleo ultrapassou US$ 90 por barril após saltar 24% em sete dias. O Estreito de Ormuz, principal rota marítima do Oriente Médio, está praticamente bloqueado por ataques iranianos a navios e à infraestrutura energética da região.
Da Ásia à Europa, refinarias e governos correm para redirecionar rotas de abastecimento — enquanto os preços sobem e contratos são descumpridos.
O bloqueio quase total do Estreito de Ormuz forçou Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait a suspenderem embarques de até 140 milhões de barris de petróleo — equivalente a 1,4 dia da demanda global. Os estoques nas instalações do Golfo Pérsico estão se esgotando rapidamente, com cortes de produção já em curso no Iraque e novos cortes esperados nos Emirados e no Kuwait.
O Catar declarou força maior nas exportações de gás após ataques de drones iranianos. O país responde por cerca de 20% do GNL mundial e pode levar pelo menos um mês para retomar os volumes normais. A refinaria e terminal de exportação Ras Tanura, da Saudi Aramco, também foi fechada sem data de reabertura divulgada.
“O conflito pode ser resolvido, mas pode levar dias, semanas ou meses para que a produção volte ao nível anterior, dependendo do tipo e da idade do campo”, avaliou Amir Zaman, da Rystad Energy.
Ásia e Europa correm contra o relógio
A Ásia obtém cerca de 60% do seu petróleo do Oriente Médio e sente o impacto de forma imediata. A refinaria estatal indiana Mangalore Refinery declarou força maior para exportações de gasolina. Pelo menos duas refinarias chinesas reduziram a produção, enquanto Tailândia e Vietnã suspenderam exportações de derivados e petróleo bruto.
No Japão, contratos futuros de energia para Tóquio subiram mais de um terço na semana. Em Seul, motoristas formaram filas em postos antecipando novos aumentos. A China pediu que refinarias suspendessem exportações de combustíveis.
Com o barril já acima de US$ 90, analistas projetam que o petróleo pode ultrapassar US$ 100 caso o conflito se prolongue — cenário que preocupa mercados desde os primeiros dias de bombardeio.
A Europa, ainda se recuperando do choque energético de 2022, precisa adquirir cerca de 180 cargas adicionais de GNL em relação ao ano passado para atingir os estoques necessários antes do próximo inverno. A pressão europeia se aprofundou com ameaças da Rússia de cortar o fornecimento de gás ao bloco, aproveitando o colapso das exportações catarianas de GNL para pressionar Bruxelas.
Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina no varejo atingiu US$ 3,32 por galão — alta de 34 centavos na semana —, enquanto o diesel chegou a US$ 4,33, ante US$ 3,76 na semana anterior. Embora o país seja o maior produtor mundial de petróleo e gás, os preços domésticos seguem os mercados internacionais.
A crise representa um risco político significativo para o presidente Donald Trump e para os republicanos às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro. Trump justificou o ataque ao Irã alegando ameaça iminente aos EUA e preocupação com o programa nuclear iraniano — mas eleitores americanos historicamente punem governos que presidem altas nos combustíveis e rejeitam novos envolvimentos militares no exterior.
A guerra também impulsionou os negócios da Rússia: os preços do petróleo russo subiram após os EUA concederem às refinarias indianas uma isenção de 30 dias para comprar o produto como substituto das importações do Oriente Médio — ao mesmo tempo em que Washington pressiona Nova Délhi a reduzir as compras de petróleo russo sob ameaça de tarifas.
O FMI alertou que a economia mundial está sendo testada mais uma vez, com economistas apontando risco direto de inflação pela alta simultânea do petróleo e do dólar. A grande incógnita permanece: quando — e como — o Estreito de Ormuz voltará a ser seguro para a navegação. Fontes militares e de inteligência indicam que o Irã tem capacidade de sustentar ataques com drones a embarcações por meses.