Armas de fogo foram o instrumento de morte em 47% dos homicídios de mulheres no Brasil em 2024, segundo levantamento do Instituto Sou da Paz divulgado no Dia Internacional da Mulher. Ao todo, 3.642 mulheres morreram em homicídios no país naquele ano.
Os feminicídios somaram 1.492 casos — cerca de 40% das mortes femininas registradas. A maioria ocorreu dentro de casa, e mulheres negras responderam por 67,5% das vítimas.
Nordeste lidera taxa de homicídios femininos
A região Nordeste concentrou 38% dos homicídios de mulheres em 2024 e registrou a maior taxa por 100 mil mulheres entre todas as regiões do país. Em 51% dos casos na região, a arma de fogo foi o instrumento utilizado — percentual acima da média nacional. No Ceará, o índice chegou a 78%, a maior proporção registrada no Brasil.
Segundo a pesquisadora Malu Pinheiro, do Instituto Sou da Paz, a expansão de facções criminosas para o Nordeste nos últimos anos ajuda a explicar parte desse quadro.
O padrão se aprofunda na escala municipal: metade dos feminicídios de 2024 ocorreu em municípios do interior do Brasil, onde mais de 70% das localidades não contam com nenhum serviço especializado de atendimento à mulher.
Mulheres negras concentram o maior risco
O levantamento aponta que 67,5% das vítimas de homicídio são mulheres negras — pretas e pardas. Nos casos de violência armada, essa proporção sobe para 72,3%. A taxa de mortes por arma de fogo entre mulheres negras (66%) é mais que o dobro da registrada entre não negras (31%).
A faixa etária de 18 a 44 anos concentra 68% dos homicídios femininos. Nos crimes com arma de fogo, o pico está entre 18 e 24 anos, que respondem por 22% dos casos.
Feminicídio cresce como proporção dos assassinatos
Dos homicídios de mulheres registrados em 2024, 40% foram classificados como feminicídio — proporção maior do que os 36,8% de 2023. Nesses casos, o instrumento mais utilizado foi a arma branca (48%), seguida de arma de fogo (23%).
Entre 2020 e 2024, as mortes de mulheres por arma de fogo caíram 12%, enquanto os homicídios de homens recuaram 15% no mesmo período. Ainda assim, a arma de fogo permanece como o meio mais utilizado nos crimes contra mulheres.
Na semana em que o estudo foi divulgado, os três Poderes da República assinaram o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, estruturando uma resposta conjunta em quatro frentes: prevenção, proteção às vítimas, responsabilização dos agressores e garantia de direitos.
O acesso a armas também integra o debate. Entre 2018 e 2022, os registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) cresceram 665% no Brasil. Para a pesquisadora Malu Pinheiro, a ampliação do acesso legal pode influenciar a violência de gênero — embora os dados disponíveis ainda não permitam confirmar essa relação com precisão. A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, defende o fortalecimento das políticas de proteção às mulheres diante dos números.