Negócios

380 mil mulheres perdem emprego após licença-maternidade em cinco anos

Levantamento do Ministério do Trabalho expõe padrão de discriminação estrutural contra mães no mercado formal

Mais de 380 mil mulheres foram demitidas em até dois anos após o término da licença-maternidade entre 2020 e 2025 no Brasil, segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho com base no sistema eSocial.

Os dados revelam um padrão recorrente: trabalhadoras que retornam ao emprego após o afastamento para cuidar dos filhos enfrentam risco elevado de desligamento — mesmo amparadas pela legislação trabalhista no período de estabilidade.

O que os números do eSocial revelam

O levantamento considera desligamentos ocorridos em até dois anos após o fim da licença-maternidade. O sistema eSocial, obrigatório para registro de demissões desde janeiro de 2020, não possui campo específico para identificar gestação ou estabilidade provisória — o que dificulta isolar casos de demissão ocorridos dentro do período de proteção legal.

Por essa lacuna, casos de demissão durante a estabilidade chegam ao Ministério do Trabalho principalmente por meio de denúncias das próprias trabalhadoras, impedindo a consolidação de estatísticas mais precisas.

Nos últimos três anos, o Ministério Público do Trabalho recebeu 1.229 denúncias envolvendo violações ao direito à licença-maternidade e discriminações relacionadas à gestação e amamentação. O número saltou de 307 registros em 2023 para 559 em 2025 — alta superior a 80%. No período, foram instaurados 471 inquéritos civis, firmados 52 termos de ajustamento de conduta e ajuizadas nove ações civis públicas.

Para o coordenador Igor Sousa Gonçalves, o total ainda subestima o problema: muitos casos envolvendo gestantes são enquadrados em categorias mais amplas, como assédio moral, sem identificação específica da maternidade.

Direitos previstos e brechas na proteção

Pela CLT, a estabilidade começa na concepção e vai até cinco meses após o parto. A licença-maternidade garante 120 dias sem alteração de salário, prorrogável para 180 dias em empresas do Programa Empresa Cidadã. O Programa Empresa Cidadã perdeu 71% dos participantes em 2024 após auditoria da Receita Federal, restringindo ainda mais o acesso das trabalhadoras à licença estendida.

A advogada trabalhista Ana Gabriela Burlamaqui alerta que, findo o prazo legal, não há garantia automática de emprego. Demissões logo após o retorno, sem histórico de avaliações negativas, podem ser reconhecidas como discriminação de gênero pela Justiça do Trabalho. Com base na Lei nº 9.029/1995, a trabalhadora pode optar por reintegração ao emprego ou indenização em dobro.

A auditora da SIT aponta que a concentração de desligamentos após o retorno da licença pode ser indício de discriminação — mas a confirmação depende de ação fiscal com análise documental. Empresas com prática comprovada podem receber auto de infração e multa administrativa.

Pesquisa da Pluxee mostra que 60% das mães já enfrentaram dificuldades profissionais em razão dos filhos. Os principais obstáculos são dificuldades para negociar horários flexíveis (42%), perda de oportunidades de promoção (33%) e discriminação em processos seletivos (33%). Entre as que enfrentaram barreiras, 29% passaram a buscar outro emprego na mesma área e 25% deixaram temporariamente o mercado para cuidar dos filhos.

Levantamento da Catho com mais de 2,4 mil mães revela que quase 40% acreditam receber menos do que colegas sem filhos no mesmo cargo. Mais da metade já foi questionada sobre filhos ou planos de maternidade em entrevistas de emprego — prática considerada discriminatória pela legislação trabalhista.

Para a especialista em cultura organizacional Marcela Zaidem, a discriminação contra mães raramente é explícita: ela surge em decisões aparentemente pequenas e repetidas que limitam a progressão profissional. Nos processos seletivos, o problema não é questionar disponibilidade, mas usar essas perguntas como filtro para descartar candidatas.

Estudo da Flash com a FGV-EAESP aponta que políticas de apoio à parentalidade elevam significativamente o engajamento: entre mães com acesso a benefícios parentais, o índice chega a 64,7% — contra 38,9% entre aquelas sem suporte. Para especialistas, apoiar o cuidado é também estratégia de retenção de talentos qualificados.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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