A Meta enfrenta um processo judicial aberto em tribunal na Califórnia que a acusa de expor imagens íntimas de usuários — incluindo cenas de nudez e relações sexuais — captadas pelos óculos inteligentes Ray-Ban Meta.
O caso veio à tona após reportagem de jornais suecos revelar que trabalhadores terceirizados no Quênia acessam regularmente esse tipo de conteúdo para treinar a inteligência artificial da empresa.
Entre os registros expostos estão imagens de pessoas se trocando, dados bancários e mensagens privadas dos próprios usuários do dispositivo.
Anotadores de dados e o trabalho invisível da IA
Os funcionários no centro do escândalo são chamados de “anotadores de dados” — profissionais da Sama, empresa terceirizada com sede no Quênia, contratada para descrever imagens captadas pelos óculos e ensinar a IA da Meta a reconhecer objetos como placas de trânsito, vasos e lâmpadas.
O problema: nesse processo, os trabalhadores também se deparam com conteúdo altamente sensível. “Vi um vídeo em que um homem coloca seus óculos na mesa de cabeceira e sai do quarto. Depois, a esposa dele entra e troca de roupa”, relatou um funcionário aos jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten, que primeiro divulgaram o caso.
“Também há cenas de sexo filmadas com os óculos inteligentes — alguém usa enquanto faz sexo. É por isso que é tão delicado”, acrescentou outro trabalhador ouvido pela imprensa sueca.
Propaganda enganosa e filtro que falha
O processo, aberto em 4 de março, alega que a Meta comercializou os óculos Ray-Ban Meta com promessas de controle total ao usuário. “Você está no controle de seus dados e conteúdo”, dizia um anúncio da empresa incluído na ação judicial como prova de publicidade enganosa.
A Meta admite em seus termos de uso que funcionários podem acessar registros dos óculos e afirma que as imagens são borradas antes da revisão. Fontes ouvidas pelos jornais suecos, porém, indicam que o filtro falha com frequência — permitindo identificar rostos e detalhes dos vídeos capturados.
A repercussão do caso ultrapassou as fronteiras americanas. O Escritório do Comissário de Informações do Reino Unido (ICO), órgão regulador de dados britânico, também acionou a Meta para solicitar esclarecimentos. “Dispositivos que processam dados pessoais, incluindo óculos inteligentes, devem dar aos usuários o controle e garantir a devida transparência”, declarou o órgão.
Em nota, a Meta afirmou que processa imagens dos óculos de acordo com seus termos de serviço e ressaltou que o dispositivo não grava de forma contínua — apenas após ativação por botão físico ou comando de voz. A empresa não se pronunciou sobre as falhas no sistema de borramento apontadas pelas reportagens investigativas suecas.