O ex-subsecretário de Estado americano Clarke Cooper, integrante do primeiro governo Trump entre 2019 e 2021, alerta que a guerra entre EUA, Israel e Irã — iniciada em 28 de fevereiro — carrega riscos que ultrapassam o Oriente Médio.
Em entrevista à BBC News Brasil, o diplomata afirmou que quanto mais o conflito se prolongar, maior a probabilidade de Teerã acionar grupos aliados para ataques terroristas em outras regiões, incluindo a Europa.
Cooper, hoje pesquisador do Atlantic Council e consultor privado, afirma que o Irã ainda dispõe de instrumentos de pressão mesmo após sofrer golpes em sua capacidade militar. O país pode mobilizar o que o ex-diplomata chama de “capacidades assimétricas” — estratégia em que uma força mais fraca explora vulnerabilidades do adversário sem confronto direto.
Na prática, isso significa acionar representantes como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, e os houthis, no Iêmen — grupos que integram o chamado “eixo da resistência” e são classificados como organizações terroristas por países ocidentais. Essa estratégia de desgaste — tornar a guerra cara demais para o adversário sem enfrentá-lo diretamente — é justamente o que o Irã construiu ao longo da última década, como o Tropiquim mostrou ao analisar a estratégia de resistência iraniana.
Para o ex-diplomata, essa tática tem raízes históricas. “A partir do momento em que militantes iranianos invadiram a embaixada dos EUA em novembro de 1979, houve uma continuidade de atos de perturbação e terrorismo, não apenas localmente, mas também de um ponto de vista transregional”, disse. Washington acusa Teerã, desde então, de ser o principal “patrocinador estatal do terrorismo no mundo”, com apoio financeiro ao eixo que reúne grupos no Iraque, na Síria e no Líbano.
A operação militar conjunta entre EUA e Israel, iniciada em 28 de fevereiro, foi apresentada por Trump com quatro metas: destruir as capacidades de mísseis do Irã, aniquilar sua Marinha, impedir o desenvolvimento de armas nucleares e cortar o financiamento a grupos terroristas. Dias depois, o secretário de Estado Marco Rubio apresentou uma justificativa diferente — de que o ataque teria sido deflagrado após alertas sobre uma ofensiva iminente de Israel contra o Irã. A divergência entre as versões, que o Tropiquim documentou ao analisar o impacto do conflito no movimento MAGA, gerou acusações de contradição dentro do próprio governo.
Apesar dos alertas sobre a extensão do conflito, Cooper descarta o cenário de uma Terceira Guerra Mundial ou de um confronto nuclear. “Não diria que estamos vivenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial”, afirmou, acrescentando que as linhas de comunicação entre Teerã e Washington permanecem abertas e que “todas as partes aparentemente querem chegar a um ponto em que mísseis parem de cair e drones parem de atacar”.
Na avaliação do ex-diplomata, a decisão sobre o encerramento do conflito caberá em grande parte ao próprio Trump, que deverá agir com pragmatismo. O presidente não deseja repetir guerras terrestres de longa duração — como as do Iraque — e a operação atual tem sido conduzida exclusivamente por poder aéreo, sem presença de tropas no território iraniano.
“Degradamos as capacidades nucleares a um ponto sem retorno? Degradamos coletivamente as capacidades de mísseis balísticos a um ponto sem retorno? Se esse for o caso, podemos imaginar que é aí que entra o pragmatismo”, disse Cooper, sugerindo que Trump poderá declarar o fim da operação ao atingir esses marcos técnicos.
A operação, porém, acumula contestações. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que os ataques violaram o direito internacional e a Carta da ONU. Nos Estados Unidos, parlamentares democratas argumentam que apenas o Congresso tem autoridade para declarar guerra — crítica à qual o governo Trump não respondeu de forma conclusiva até o momento.