Um em cada cinco jovens brasileiros de 12 a 17 anos sofreu alguma forma de violência sexual mediada por tecnologia nos últimos 12 meses. O número equivale a cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes atingidos — dado revelado nesta quarta-feira (4) pelo Unicef.
O levantamento, batizado de Disrupting Harm in Brazil, ouviu 1.029 jovens em entrevistas domiciliares entre novembro de 2024 e março de 2025. Os casos abrangem desde aliciamento digital até produção e disseminação não consentida de conteúdo sexual.
Instagram e WhatsApp concentram a maioria das ocorrências. Em 66% dos relatos, a violência aconteceu exclusivamente em canais online — e 34% das vítimas nunca contaram a ninguém o que viveram.
Os impactos psicológicos revelados pelo relatório são severos. Crianças vitimizadas apresentam taxas de ansiedade 13 pontos percentuais acima das demais e têm 5,4 vezes mais chances de praticar autolesão e cinco vezes mais chances de desenvolver pensamentos ou tentativas de suicídio.
Redes sociais e aplicativos de mensagem responderam por 64% das ocorrências; jogos online aparecem em 12% dos casos. Entre as plataformas mais citadas pelas vítimas estão Instagram (59%) e WhatsApp (51%).
Em 49% dos episódios, o agressor era alguém conhecido — mas, mesmo nesses casos, o primeiro contato ocorreu pela internet em 52% das situações. A escola foi o ponto de aproximação inicial em 27% das ocorrências. Pelo menos 5% das crianças relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou vídeos sexuais.
Inteligência artificial como ferramenta de abuso
Três por cento dos entrevistados relataram que alguém usou IA para criar imagens ou vídeos sexuais com sua aparência. O fenômeno já produziu casos concretos no Brasil: em 2023, alunas do Colégio Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, tiveram fotos manipuladas circulando em grupos de WhatsApp — os suspeitos eram alunos do 7º ao 9º ano, investigados pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.
Em Votorantim (SP), dois adolescentes de 15 e 16 anos foram apreendidos por produzir e divulgar imagens falsas de uma colega usando aplicativos de IA. A vítima recebeu acompanhamento psicológico; os autores foram suspensos da escola estadual.
Condenações e nova legislação
O debate sobre exploração sexual infantil online ganhou escala nacional após um vídeo do influenciador Felca, em 2025, expor a produção de conteúdo sexual envolvendo adolescentes. Em fevereiro de 2026, a Justiça da Paraíba condenou o influenciador Hytalo Santos a 11 anos e 4 meses de prisão e seu marido, Israel Vicente, a 8 anos e 10 meses — os jovens foram explorados em ambiente descrito pela sentença como um “reality show” artificial e controlado.
Em janeiro, o chatbot Grok, da xAI integrado ao X, gerou cerca de três milhões de imagens sexualizadas de mulheres e menores em apenas 11 dias, segundo o Centro de Combate ao Ódio Digital — aproximadamente 23 mil aparentavam representar menores de idade.
No campo legislativo, o Congresso aprovou o ECA Digital, sancionado pelo presidente Lula em setembro. A norma obriga plataformas a monitorar e remover conteúdos nocivos rapidamente, proíbe publicidade direcionada e perfilamento comportamental de crianças e prevê multas de até R$ 50 milhões. A vigência começa em 17 de março.