A startup brasileira Alya Nanossatélites, sediada na Bahia, negou nesta quinta-feira (5) fornecer dados ao governo da China para fins militares.
A empresa foi citada em relatório do Congresso dos Estados Unidos que acusa Pequim de montar uma rede de instalações espaciais na América Latina com potencial uso bélico.
A CEO Aila Raquel afirmou que a empresa opera exclusivamente para “monitoramento ambiental, resposta a desastres naturais e gestão territorial”.
O relatório americano
Publicado nesta semana, o documento da Comissão Seleta da Câmara dos Representantes dos EUA sobre Competição Estratégica com o Partido Comunista Chinês aponta duas instalações em território brasileiro: a Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, e um laboratório de radioastronomia na Serra do Urubu, no sertão da Paraíba.
A estação baiana é operada pela Alya Nanossatélites em parceria com a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, por meio de acordo firmado em 2020, durante o governo Bolsonaro.
Segundo o relatório, a Beijing Tianlian forneceria “dados de comunicação de voz de longa duração e alta cobertura entre espaço e Terra para voos espaciais tripulados e satélites de reconhecimento” — serviços que a CEO da startup também negou prestar.
Os deputados americanos expressam preocupação com o local exato da estação, com o acordo de transferência de dados e tecnologia entre as partes e com a participação da Força Aérea Brasileira no projeto.
O comitê bipartidário, criado em 2023 e composto por parlamentares democratas e republicanos, conclui que Pequim pode estar estabelecendo um posto de rastreamento dos céus no local, capaz de “observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira”.
Reação brasileira e recomendações dos EUA
Na terça-feira (3), a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados do Brasil solicitou explicações ao Ministério da Defesa sobre a estação de Tucano.
Já o radiotelescópio na Serra do Urubu integra um projeto de pesquisa multinacional que inclui França e Reino Unido, com equipamentos ainda em fase de fabricação em São Paulo. A preocupação americana é que os sensores possam captar sinais emitidos por equipamentos militares e satélites, além de instrumentos de guerra eletrônica.
O relatório — intitulado China em nosso quintal dos fundos: volume 2 — recomenda que o governo Trump estabeleça como objetivo explícito barrar a infraestrutura espacial ligada à China no hemisfério ocidental e realize “diplomacia de inteligência” nos países da região.
A comissão também pede ao governo americano que trabalhe com países como o Brasil para “encorajar a transparência, os direitos de inspeção” e a “supervisão legal” das instalações citadas. A Alya afirmou estar à disposição das autoridades para esclarecimentos e disse não ter sido procurada por membros da comissão norte-americana.