Metade dos feminicídios registrados no Brasil em 2024 aconteceu em cidades com menos de 100 mil habitantes — justamente onde faltam estruturas de proteção. Os dados são do relatório Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado em março de 2026.
O país contabilizou 1.492 feminicídios no ano, média de quatro assassinatos de mulheres por dia. Dos casos, 746 foram registrados em municípios de pequeno porte, onde vive 41% da população feminina brasileira.
Onde o feminicídio mata mais
A concentração de casos em municípios menores fica evidente quando os dados são desagregados. Cidades com até 20 mil habitantes — onde vivem 14,6% das brasileiras — concentraram 19,6% de todos os feminicídios do país em 2024. Na faixa de 20 mil a 50 mil habitantes, que reúne 15,2% das mulheres, os assassinatos chegaram a 19,7% do total.
O padrão é inequívoco: quanto menor o município, maior o peso proporcional da violência letal contra mulheres. Os números desarmam a percepção de que o problema se concentra nas grandes metrópoles — ao contrário, ele avança com força onde há menos estrutura de resposta.
Para Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP, o cenário é resultado direto da ausência de políticas públicas estruturadas fora dos grandes centros. Apenas 27,1% dos municípios de pequeno porte contam com ao menos um serviço da rede especializada de atendimento à mulher. Mais de 70% das cidades com menos de 100 mil habitantes não têm nenhum equipamento específico — nenhuma Delegacia de Defesa da Mulher, nenhuma casa abrigo.
Perfil das vítimas
Entre 2021 e 2024, o Brasil registrou 5.729 feminicídios. O perfil predominante é de uma mulher negra, entre 30 e 49 anos, trabalhadora, moradora da periferia ou do interior. No período, 62,6% das vítimas eram negras; 36,8%, brancas.
A maioria foi morta por um homem próximo: 59,4% pelos próprios companheiros e 21,3% por ex-companheiros. Em 97,3% dos casos, os autores eram homens. Os meios mais utilizados foram arma branca (48,7%) e arma de fogo (25,2%).
Barreiras que impedem a denúncia
Em municípios menores, a proximidade social cria obstáculos invisíveis à denúncia. O medo da exposição pública e do julgamento em comunidades onde todos se conhecem funciona como filtro silencioso. A proximidade também pode comprometer o atendimento institucional: não é raro que agressores sejam conhecidos de policiais ou guardas municipais, o que pode resultar em proteção informal ao homem e revitimização da mulher.
Especialistas chamam de “rota crítica” o percurso que a mulher precisa enfrentar para buscar ajuda — deslocamentos longos até outra cidade, repetição de relatos traumáticos, atendimento desqualificado e demora na concessão de medidas protetivas. Um caminho tão desgastante que frequentemente leva à desistência.
O caso da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, expõe as falhas do sistema mesmo onde há estrutura especializada. Em 2025, ela registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) em Campo Grande (MS) e relatou ter sido tratada de forma fria e interrompida continuamente pela delegada. Horas depois, foi assassinada pelo ex-noivo.
O relatório do FBSP conclui que a Lei Maria da Penha, embora seja o principal marco legal de proteção às mulheres no país, ainda não se traduz em garantia concreta para quem vive no interior. A desigualdade territorial na oferta de serviços segue sendo um dos principais vetores que alimentam o silêncio — e a morte.