Dois terços das pessoas que vivem com obesidade acreditam que a condição pode ser prevenida por escolhas pessoais — como dieta e exercícios físicos. O dado vem de uma pesquisa global da Ipsos divulgada na quarta-feira (4), Dia Mundial da Obesidade.
O levantamento ouviu 14.500 pessoas em 14 países, incluindo o Brasil, e expõe uma contradição de peso: a maioria ainda atribui o problema ao comportamento individual, enquanto a ciência aponta para causas muito mais complexas.
Entre os participantes, 63% concordam que dieta e exercícios físicos, sozinhos, conseguem resolver a obesidade para a maioria das pessoas. Apenas 51% reconhecem que fatores genéticos e biológicos são a causa primária da condição — número que revela o quanto o estigma ainda molda a percepção pública sobre a doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a obesidade como doença crônica complexa, impulsionada por fatores biológicos, ambientais e sociais. Para especialistas, reduzir o problema à força de vontade pode dificultar o acesso ao tratamento adequado.
O que diz a ciência em 2026
O World Obesity Atlas 2026, publicado pela Federação Mundial de Obesidade um dia antes da pesquisa, reforça que os ambientes onde as pessoas vivem, trabalham e estudam influenciam diretamente o risco de desenvolver a doença. Fatores precoces — como condições na gestação e nos primeiros meses de vida — também têm impacto considerável.
No Brasil, o quadro é alarmante: dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 60% da população está acima do peso, sendo que 25% já enfrenta obesidade. Ainda assim, apenas 55% dos brasileiros concordam que a condição exige acompanhamento médico contínuo — abaixo da média global, que supera os 70%.
O que os pacientes sabem sobre as complicações
A pesquisa mapeou o conhecimento sobre os riscos associados à obesidade. A ligação com o diabetes é a mais conhecida: 53% dos entrevistados com a doença estão cientes dessa relação. A conexão com doenças cardiovasculares vem logo atrás, reconhecida por 52%.
Já a associação com o câncer é amplamente ignorada: apenas 18% sabem que a obesidade está ligada ao desenvolvimento de alguns tipos da doença — um gap de informação preocupante, dado que a relação entre excesso de peso e tumores é amplamente documentada pela medicina.
Peso emocional da condição
Além dos riscos físicos, a pesquisa evidencia o impacto psicológico da obesidade. Cerca de 36% dos entrevistados com a condição afirmam sentir ansiedade ao pensar em como são percebidos pelos outros, com índices consideravelmente mais altos do que os registrados entre pessoas sem obesidade.
Os dados reforçam o que pesquisadores já apontam: o estigma em torno da doença não afeta apenas a autoestima — pode comprometer a busca por ajuda médica e a adesão ao tratamento, tornando a desinformação um obstáculo clínico real.