Pela primeira vez na história, o número de crianças com obesidade deve superar o de crianças abaixo do peso entre 2025 e 2027. O alerta é da World Obesity Federation em relatório divulgado em março de 2026.
Atualmente, 20,7% das crianças e adolescentes de 5 a 19 anos vivem com sobrepeso ou obesidade — mais de uma em cada cinco. Em 2010, esse índice era de 14,6%.
No Brasil, cerca de 16,5 milhões de jovens entre 5 e 19 anos já estavam com excesso de peso em 2025. Para 2040, a projeção é que esse percentual ultrapasse 50% da população infantojuvenil brasileira.
Avanço mais acelerado nos países de renda média
O relatório aponta que as taxas de obesidade e IMC elevado crescem de forma especialmente rápida em economias de renda média. Embora a prevalência historicamente seja maior em países ricos, os maiores números absolutos de crianças com obesidade já estão nas nações emergentes — reflexo direto da distribuição populacional global.
As consequências vão além do peso na balança. Atualmente, 7,8 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos convivem com hipertensão, hiperglicemia, triglicerídeos elevados ou doença hepática associadas ao excesso de peso. A projeção indica aumento de 15%, chegando a 9 milhões de diagnósticos nessa faixa etária.
Sedentarismo e bebidas açucaradas como vetores centrais
Em 95% dos países com dados disponíveis, mais de 75% dos adolescentes de 11 a 17 anos não atingem as recomendações mínimas de atividade física. O cenário é praticamente universal: a maioria dos jovens fica aquém do que seria necessário para manter a saúde metabólica.
O consumo de bebidas com açúcar reforça o problema. Em 74% dos países analisados, crianças de 6 a 10 anos ingerem mais de 100 ml por dia desse tipo de bebida — exposição precoce que eleva o risco metabólico e favorece o ganho de peso.
O atlas destaca ainda determinantes que antecedem o nascimento: sobrepeso materno, diabetes gestacional, tabagismo durante a gravidez e amamentação insuficiente. Em 95% dos países, mais de 25% dos bebês de 1 a 5 meses têm exposição subótima ao aleitamento materno — fator associado ao maior risco de obesidade ao longo da infância.
Políticas eficazes existem, mas implementação ainda é desigual
O relatório lista medidas reconhecidas internacionalmente como eficazes para conter o avanço da obesidade infantil: taxação de bebidas açucaradas, regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados voltada ao público infantil e promoção de atividade física nas escolas estão entre as ações citadas.
O documento é claro, porém: a existência formal dessas políticas não garante resultado. Monitoramento contínuo, fiscalização efetiva e integração com a atenção primária à saúde são apontados como condições indispensáveis para que as iniciativas consigam, de fato, frear os índices.
A análise reforça que a obesidade infantil não decorre de escolhas individuais, mas de um conjunto de determinantes sociais, biológicos e ambientais que começam ainda na gestação. Sem resposta estrutural, a tendência é de agravamento do cenário projetado para 2040 — quando mais da metade das crianças e adolescentes brasileiros pode estar com excesso de peso.