Uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso. A endocrinologista Maria Edna de Melo, chefe da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da USP, defende imposto de 30% sobre bebidas açucaradas e veto a ultraprocessados nas escolas privadas.
Dados do Sisvan mostram que 33% das crianças e adolescentes têm excesso de peso e 13% estão obesos. Para 2040, a Federação Mundial de Obesidade estima que mais da metade dessa faixa etária estará nessa condição.
Ultraprocessado mais barato, fruta mais cara
A endocrinologista chama atenção para uma contradição do mercado alimentar brasileiro: nos últimos anos, a inflação das frutas superou em mais de 40% a dos refrigerantes. Isso torna inviável exigir que famílias de baixa renda sigam a recomendação da OMS de meio quilo diário de frutas, verduras e legumes por dia.
“Os ultraprocessados são cada vez mais acessíveis, enquanto frutas, verduras e legumes ficaram mais caros. A escolha não é tão livre quanto parece”, afirma Melo. Para ela, o crescimento da obesidade é mais intenso entre populações de baixa renda — e não se trata de culpa individual.
Um estudo da Unifesp publicado no International Journal of Obesity identificou sinais precoces de inflamação e disfunção do endotélio — camada que reveste os vasos sanguíneos — em crianças com sobrepeso. O achado indica que doenças como aterosclerose, infarto e AVC deixaram de ser exclusividade da vida adulta.
Escolas e legislação
No Brasil, escolas que recebem verba federal são obrigadas a usar os recursos apenas com alimentos saudáveis. O mesmo não vale para instituições privadas — e não há regulamentação nacional para cantinas. Um projeto de lei no Senado propõe ampliar as restrições a toda a rede de ensino.
Melo também defende mudanças na tributação. Especialistas estimam que uma taxação de 30% sobre bebidas açucaradas seria necessária para gerar impacto real no consumo. “Não nascemos tomando refrigerante. Reduzir o consumo é uma recomendação das autoridades de saúde pública”, diz.
O alerta da médica dialoga com projeção recente da Federação Mundial de Obesidade: segundo relatório divulgado em março, o número de crianças com obesidade deve superar o de crianças abaixo do peso ainda nesta década — e o Brasil está entre os países mais vulneráveis à tendência.
Da expectativa de vida ao estigma
O impacto físico começa antes da adolescência. Crianças obesas já apresentam hipertensão, triglicérides elevados e diabetes — doenças que até pouco tempo apareciam apenas após os 40 anos. Estudos citados por Melo indicam que uma criança com obesidade grave aos 5 anos pode ter expectativa de vida de apenas 43 anos.
O dano emocional é igualmente grave. A qualidade de vida de crianças com obesidade pode ser semelhante ou pior do que a de crianças com câncer. O bullying é frequente e pode levar a ansiedade, depressão e abandono escolar. “Muitas estratégias adotadas pelas escolas são insuficientes. Às vezes, o próprio ambiente reforça a estigmatização”, alerta a médica.
A afirmação de que a escolha alimentar não é livre ganha respaldo empírico: pesquisa global divulgada no Dia Mundial da Obesidade mostrou que dois terços das pessoas com obesidade ainda atribuem a doença a decisões individuais — exatamente o estigma que especialistas tentam combater.
O sedentarismo agrava o cenário. Com violência urbana limitando brincadeiras ao ar livre e tempo crescente de tela, crianças movem-se cada vez menos. Para Melo, enfrentar a crise exige políticas públicas, ambiente alimentar mais justo e redução do estigma. “Transferir a responsabilidade para a criança é inaceitável. É uma tarefa da sociedade”, defende.