O conflito entre Irã e Estados Unidos, que já se alastra pelo Oriente Médio, começa a pressionar os custos da agricultura brasileira e pode encarecer os alimentos para o consumidor nos próximos meses, alertam economistas.
Em menos de uma semana de guerra, as cotações de fertilizantes já subiram, o frete marítimo ficou mais caro e o diesel ameaça seguir o mesmo caminho — três vetores que comprometem desde a próxima safra até as exportações de frango e carne bovina.
Fertilizantes: ureia sobe US$ 39 em 24 horas
O Oriente Médio é a quarta maior região fornecedora de fertilizantes químicos para o Brasil e responde por 40% das exportações mundiais de ureia e 28% das de amônia, segundo Tomás Rigoletto Pernías, analista da StoneX Brasil.
O efeito foi imediato: o contrato futuro de ureia para março subiu US$ 39 só entre os dias 2 e 3 de março. Os preços já estavam pressionados antes do conflito pela forte demanda de EUA, China e Índia para o plantio de grãos.
Para o produtor brasileiro, o impacto concreto deve atingir as safras do segundo semestre. O fertilizante usado agora já foi comprado antecipadamente. Paulo Pavinato, professor da ESALQ/USP, detalha que o Brasil adquire adubos fosfatados e potássicos para a soja entre maio e julho, enquanto a ureia para o milho é comprada a partir de novembro.
“Essa elevação de custo é bastante preocupante, porque os produtores já estão pressionados”, afirma Leandro Gilio, do Insper Agro Global, lembrando que juros altos e dificuldades de crédito já pesam sobre o setor.
Estreito de Ormuz e o encarecimento do frete
O Irã fechou o Estreito de Ormuz após ataques de EUA e Israel, derrubando bolsas globais e fazendo o petróleo saltar mais de 5% em um único pregão — movimento que já eleva custos de frete e seguro para navios brasileiros. A passagem conecta os grandes produtores do Golfo ao Mar Arábico e também é usada para transportar fertilizantes.
Felippe Serigati, da FGV Agro, explica que o encarecimento do frete, do seguro e do contêiner afeta as commodities globalmente: “Isso faz com que o preço aumente praticamente para todo mundo, independentemente de onde esteja.”
Exportações de frango e carne já sentem o impacto
As exportações brasileiras de proteína animal já enfrentam efeitos diretos. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), diz que as novas rotas são mais demoradas e caras, e que os armadores já implementaram uma “taxa de guerra” para cobrir seguros extras e custos de refrigeração — necessária entre -16°C e -18°C para a carne. Novas reservas de navios estão temporariamente suspensas.
Os Emirados Árabes são os maiores compradores de frango do Brasil, seguidos por Japão e Arábia Saudita. Kuwait, Catar, Omã e Iêmen também figuram entre compradores relevantes da região.
Na carne bovina, a Abiec informou que o Oriente Médio responde por cerca de 10% dos embarques brasileiros. “Não há nada que possamos fazer. Está fora do nosso controle”, disse Roberto Perosa, presidente da entidade. O Irã foi o 11º maior comprador do agronegócio brasileiro em 2025, segundo o Agrostat. No milho, era o principal cliente — mas os embarques só ocorrem a partir de junho.
Diesel e custo de produção no campo
Analistas já projetam que o barril de petróleo pode chegar a US$ 100 caso o conflito se prolongue — patamar que tornaria ainda mais caro o diesel usado nas lavouras e no transporte da safra. A colheita da soja, em fase de escoamento para os portos, pode ser diretamente afetada.
Serigati pondera, no entanto, que o cenário é diferente do início da guerra entre Ucrânia e Rússia: “Naquele momento havia escassez de petróleo. Agora, há excesso de oferta. Ainda tem espaço para acomodar a turbulência”, avalia. A queda do dólar desde o início do ano e o clima favorável à produção são fatores que podem ajudar a conter os preços para o consumidor.