A China estabeleceu a menor meta de crescimento econômico em mais de três décadas. Durante a abertura da Assembleia Popular Nacional, o primeiro-ministro Li Qiang anunciou um alvo de expansão entre 4,5% e 5% para 2026 — o mais baixo desde 1991, exceção feita a 2020, quando Pequim não fixou objetivo por causa da pandemia.
O anúncio marca o reconhecimento oficial de Pequim sobre os desafios estruturais que pesam sobre a segunda maior economia do planeta: estagnação do consumo, crise no setor imobiliário e pressões comerciais dos Estados Unidos.
A reunião anual do Parlamento chinês, conhecida como Duas Sessões, também serviu de palco para o anúncio de um aumento de 7% no orçamento de defesa, que chegará a 1,9 trilhão de yuans — cerca de US$ 276,8 bilhões ou R$ 1,4 trilhão. O valor ainda é aproximadamente três vezes inferior ao gasto militar americano, mas reforça as ambições de Pequim em relação a Taiwan e ao Mar da China Meridional.
Li Qiang não poupou palavras ao descrever o cenário enfrentado pelo país. “Poucas vezes enfrentamos um panorama tão grave e complexo, no qual crises e desafios externos se entrelaçavam com dificuldades internas e decisões políticas difíceis”, afirmou na abertura do encontro, diante de milhares de parlamentares reunidos no Grande Salão do Povo.
Reorientação do modelo econômico
O Partido Comunista Chinês defende que o motor do crescimento precisa migrar das exportações e da manufatura para o consumo interno. Entre as metas para 2026, o governo prevê inflação ao consumidor de cerca de 2% e crescimento da renda dos residentes em linha com a expansão do PIB.
Em 2025, a economia chinesa cresceu 5%, impulsionada por exportações recordes: o superávit comercial atingiu US$ 1,2 trilhão, mesmo em meio a uma prolongada guerra tarifária com Washington. O país responde por um terço do crescimento econômico global.
Plano Quinquenal e aposta na tecnologia
Nas margens das Duas Sessões, Pequim deve divulgar seu 15º Plano Quinquenal, com metas nacionais de desenvolvimento até 2030. O documento terá foco especial em inteligência artificial, manufatura de alta tecnologia e segurança energética — sinal de que a China aposta na inovação para compensar a desaceleração estrutural.
Analistas observam que as votações e reformas aprovadas no Parlamento chinês, na prática, já haviam sido decididas previamente pelo presidente Xi Jinping e pelo Partido Comunista. A cerimônia é descrita por especialistas como um teatro político que formaliza decisões tomadas nos bastidores do poder.
A meta de 4,5% a 5% reflete não apenas a maturidade da economia chinesa, mas também a pressão de desequilíbrios acumulados: o mercado imobiliário segue em retração, o consumo doméstico não decola e a dependência das exportações expõe o país às oscilações do comércio global.