A crise no Oriente Médio, deflagrada após ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, coloca o Brasil em posição incomum: a de potencial beneficiário do conflito.
Na segunda-feira (2/3), o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo produzido no mundo. A medida forçou países como China, Índia e Japão a buscar fontes alternativas de abastecimento.
Analistas apontam o Brasil como um dos fornecedores mais bem posicionados para suprir essa demanda — desde que o bloqueio se prolongue por pelo menos quatro semanas.
Por que o Brasil está bem posicionado
O Brasil exporta, em média, 1,6 milhão de barris de petróleo por dia e já conta com uma rede estruturada de portos e oleodutos voltados para a exportação. A rota marítima até os principais mercados consumidores não passa por pontos sensíveis como o Estreito de Ormuz — uma vantagem logística relevante no cenário atual.
Em 2025, o país exportou US$ 44 bilhões em petróleo bruto. Desse total, US$ 20 bilhões — cerca de 45% — foram destinados à China, que já é o principal comprador do petróleo brasileiro. Desde 2024, o petróleo bruto superou soja e minério de ferro como principal item da pauta de exportação nacional.
Matt Smith, consultor da Kpler, uma das maiores firmas de análise de dados de navegação do mundo, explica que a China consome sozinha metade de todo o petróleo produzido no Oriente Médio. “Se a situação se prolongar, a China vai ter que procurar alternativas de suprimento. E o Brasil está bem posicionado para atender essa nova demanda”, afirma.
O fechamento do Estreito de Ormuz, anunciado pela Guarda Revolucionária após a morte do aiatolá Khamenei, veio acompanhado de ameaças de incêndio a embarcações que tentassem cruzar a passagem — o gatilho que pressiona países asiáticos a buscar fontes alternativas com urgência.
Petrobras e outras petroleiras brasileiras já sentiram o efeito: as ações preferenciais da estatal subiram 3,57% entre sexta-feira e terça-feira. O barril do Brent já havia ultrapassado US$ 82 nos primeiros dias do conflito, com analistas projetando que pode atingir US$ 100 caso o bloqueio persista — cenário que ampliaria tanto os lucros da Petrobras quanto a arrecadação federal com royalties e participações especiais.
Limites e riscos para o Brasil
O otimismo tem freios claros. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), alerta que o Brasil não tem condições de ampliar exportações de forma imediata. “A curva de crescimento da produção é gradual, podendo levar meses ou anos”, diz. O país produz 3,6 milhões de barris por dia e consome internamente boa parte dessa produção.
A projeção é que, até 2029, com projetos já em andamento, o Brasil chegue a 4,2 milhões de barris diários — o que poderia alçar o país ao posto de sexto maior produtor mundial. No curto prazo, porém, a capacidade adicional é limitada.
Há também um lado negativo: o Brasil exporta petróleo bruto, mas importa gasolina e diesel. Uma alta sustentada nos preços internacionais pressiona a cadeia petroquímica e pode se converter em inflação interna, corroendo o poder de compra da população.
O possível ganho com exportações de petróleo chega em momento delicado: o PIB brasileiro cresceu apenas 2,3% em 2025, e a guerra no Irã já é apontada como nova ameaça ao crescimento em 2026, justamente pela pressão inflacionária que o petróleo caro tende a provocar no mercado interno.
Para o governo federal, o cenário é ambíguo. Em 2024, a Petrobras pagou R$ 28,8 bilhões em dividendos à União — valor que uma alta no preço do óleo poderia ampliar. Mas o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, reconhece que o mesmo movimento traz risco inflacionário. Smith e Ardenghy convergem: sem ao menos quatro semanas de bloqueio, a mudança no fluxo global de compras de petróleo simplesmente não se materializará.