O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciado em 28 de fevereiro, pode gerar o maior choque no mercado de petróleo em anos. A avaliação é da revista britânica The Economist, que acompanha de perto a escalada nos preços da commodity desde o início dos bombardeios americanos.
Em 1º de março, um dia após o presidente Donald Trump ordenar ataques às instalações nucleares iranianas, o barril do petróleo Brent ultrapassou US$ 82 (R$ 426), alta de 13% desde 27 de fevereiro. Ao final da sessão, recuou para US$ 80 (R$ 416) — mas registrou a maior alta em quatro anos.
Antes mesmo do início do conflito, o mercado já sinalizava instabilidade. Na semana anterior aos ataques, o petróleo fechou a US$ 72 (R$ 374) o barril — o maior valor desde julho do ano passado e cerca de US$ 10 acima do que os fundamentos de oferta e demanda justificariam, de acordo com Tom Reed, da Argus Media, à The Economist.
O cenário de risco tem uma razão geográfica central: o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo. A revista britânica alerta que o Irã parece determinado a dificultar a travessia na passagem — e que, embora uma tentativa de bloqueio deva ser rapidamente desmantelada pelos EUA, a região está se tornando rapidamente inavegável.
Sinais de satélites foram interrompidos, elevando o risco de colisões entre navios. Seguradoras passaram a cobrar prêmios mais altos ou simplesmente cancelaram apólices de embarcações que tentam cruzar o estreito. Poucos navios conseguiram atravessar desde o início dos ataques, e uma fila crescente de petroleiros aguarda em ambos os lados da passagem.
Alta de 20% no ano e risco de US$ 100 o barril
Tensões no Golfo Pérsico e sanções mais rígidas de países ocidentais já haviam elevado os preços do petróleo em cerca de 20% em 2026. Com o novo conflito, a The Economist projeta que o barril pode atingir US$ 100 (R$ 520), a depender de como a guerra evoluir.
A revista também destacou o padrão de Trump de anunciar campanhas militares nos fins de semana — quando os mercados de petróleo estão fechados —, em suposta tentativa de evitar altas abruptas nos preços. No caso iraniano, porém, a estratégia não funcionou: os mercados já precificavam o risco antes mesmo dos bombardeios.
A escalada nos ataques iranianos amplia a preocupação dos mercados. As ofensivas, que inicialmente miravam apenas alvos militares americanos, já se expandiram para infraestruturas de outros países da região. Para a The Economist, o movimento pode ser uma tentativa do Irã de forçar os EUA de volta à mesa de negociações ao envolver países vizinhos no conflito.
Reserva estratégica americana sob pressão
Uma das poucas ferramentas disponíveis a Trump para conter os preços seria acionar a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA — estratégia usada por Joe Biden após a invasão da Ucrânia, em 2022. O problema: a reserva conta hoje com 155 milhões de barris a menos do que havia há quatro anos. Com capacidade máxima de extração de 4,4 milhões de barris por dia, ela duraria apenas três meses — mas a incerteza gerada pelo conflito pode persistir por muito mais tempo.
A alta do petróleo também traz implicações políticas para o governo Trump. O custo de vida nos EUA já estava sob pressão, e as medidas republicanas têm sido insuficientes para conter a inflação. O impacto nos preços da gasolina pode pesar nas eleições de meio de mandato, deixando o presidente com pouco espaço de manobra.
O desfecho do conflito depende, em última instância, do futuro da liderança iraniana. Se Trump conseguir mudar o regime dos aiatolás, o Irã poderia deixar de ser fonte de instabilidade regional, com eventual alívio nas sanções e aumento da oferta global de petróleo — pressionando os preços para baixo. Se os aiatolás permanecerem no poder, o risco de fechamento do Estreito de Ormuz e de novas sanções deve continuar a afetar os mercados por tempo indeterminado.