Pela primeira vez, cientistas conseguiram transformar células da pele humana em óvulos e fertilizá-los em laboratório. O estudo, divulgado nesta terça-feira (30), representa um avanço significativo para tratamentos de infertilidade.
A pesquisa, liderada por especialistas dos Estados Unidos, ainda está distante de ser aplicada clinicamente. O método pode beneficiar mulheres inférteis e casais do mesmo sexo no futuro.
Entenda o avanço científico
O estudo publicado na revista Nature Communications detalha como pesquisadores transferiram o núcleo de células da pele para óvulos doados, previamente esvaziados de seu núcleo. Essa técnica, chamada de transferência nuclear de células somáticas, já foi usada para clonar a ovelha Dolly em 1996.
Um dos desafios era adequar o número de cromossomos: células da pele possuem 46, enquanto óvulos têm 23. Os cientistas solucionaram isso com um processo chamado “mitomeiose”, que imita a divisão celular natural e elimina cromossomos extras.
Foram criados 82 ovócitos, posteriormente fertilizados por esperma via fertilização in vitro (FIV). Após seis dias, menos de 9% dos embriões atingiram o estágio em que poderiam, hipoteticamente, ser transferidos para o útero em um procedimento padrão de FIV.
Possíveis aplicações futuras
Segundo Paula Amato, coautora do estudo e pesquisadora da Universidade de Ciências e Saúde do Oregon, o método pode permitir que mulheres mais velhas ou que não produzem óvulos tenham filhos geneticamente próprios. Além disso, casais do mesmo sexo poderiam gerar filhos geneticamente relacionados aos dois membros.
Limitações e perspectivas
Apesar do avanço, os embriões produzidos apresentaram várias anomalias, levando à suspensão do experimento. Amato estima que a técnica possa estar disponível em cerca de uma década, mas ressalta que o principal desafio é obter óvulos geneticamente normais com o número correto de cromossomos.
Ying Cheon, especialista em medicina reprodutiva da Universidade de Southampton, considerou o feito “emocionante” e acredita que pode abrir caminho para novas opções a quem não possui alternativas reprodutivas. Outros grupos de pesquisa utilizam métodos diferentes, como a reprogramação de células não reprodutivas para um estado indiferenciado, transformando-as depois em óvulos.
Amato destaca ser cedo para saber qual abordagem será mais eficaz e reforça que a aplicação clínica ainda está distante. O estudo seguiu as diretrizes éticas vigentes nos Estados Unidos para uso de embriões.